por Bernardo Brum

Voilá, eis a minha especialidade: encenar a palavra e o seu poder“,  disse Rohmer numa entrevista a um site sobre seu penúltimo filme, Agente Triplo. Esse foi o maior artifício de toda uma carreira. Charlotte e seu Bife é um dos primeiros filmes de Eric Rohmer e um exemplar da sua leva de curtas-metragens, e já demonstrava a naturalidade com que desenhava as palavras no filme, que comandam os seus personagens, desencadeiam neles ações, de forma absolutamente indissolúvel da imagem, por mais que não tenham relação alguma.

Walter acompanha sua amiga Clara à estação, e logo em seguida vai visitar uma amiga sua, Charlotte. Ele quer beijá-la, mas ela apenas faz comida para ele. Durante isso, conversam. No fim do filme há um beijo, ponto alto da narrativa que logo se esvazia ao descobrirmos a falta de sentimento ao redor desse ato físico.

Escritor frustrado que se tornou cineasta, Rohmer foi um daqueles que mostrou, ao lado de Jacques Tati e Robert Bresson, como ouvir era importante no cinema, e como acabamos maravilhados pelos diálogos do seu filme por termos ouvido muito mais atentos que olhos, que vagueiam pela tela preguiçosos quando há ações vagas. Ainda que aqui ele não diga muito e tampouco chegue a algum lugar, já é uma bela demonstração de potencial que seria exercitado incasavelmente ao longo de mais de cinco décadas de cinema.

3/5

Ficha técnica: Charlotte e seu Bife (Présentation ou Charlotte et son Steak) – França, 1960. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Anna Karina, Stéphane Audran, Jean-Luc Godard

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