por Bernardo Brum

Pauline na Praia é, facilmente, um dos roteiros mais bem-escritos e acabados por Rohmer.  Assim como O Joelho de Claire, infidelidade e desejo são abordados o tempo todo; mas jamais da mesma forma. Assim, esse é o tipo de obra que parece confirmar que Eric era daquela estirpe de diretores que refinam um certo tipo de obra – a comédia leve sobre a moral das pessoas contemporâneas – incontáveis vezes, e sempre de forma diversificada, fazendo com que cada obra sua tenha um certo frescor de originalidade ao transmitir suas opiniões.

Este é um filme que fala ainda mais sobre a infidelidade dos casais modernos, pessoas movidas ora por curiosidade, ora por desilusão. Tanto o lado feminino, movido pela jovem Pauline e sua prima mais velha, Marion, quanto os homens, como o velho amigo ciumento e invejoso Pierre, o mulherengo Henri e o jovem e inocente windsurfista Sylivan.

A praia no verão fazem às vezes de campo e demais ambientes bucólicos que Rohmer tanto apreciava filmar em sua edição econômica e planos gerais; é lá que tanto o desejo hormonal dos mais jovens quanto o desejo mais maduro afloram em um filme abertamente sensual cheio de pequenos e hilários momentos (o momento que Henri, que acabou de trair a já muitas vezes decepcionadas Marion, aproveita para jogar a culpa em Sylivan e dizer que ele é quem traiu Pauline, é arquitetado de forma tão natural que é difícil imaginar aquele artifício como um fato algo improvável).

Nesse meio tempo, entre uma trepada e outra, entre uma trapalhada e a próxima, e no meio de todos os imprevistos, os personagens discorrem incansavelmente sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que querem, sobre suas expectativas e suas experiências. Tudo sem julgar ou condenar seus personagens pessoas tão defeituosas e incertas sobre a vida que são completamente palpáveis.

Poucos cineastas retrataram tão bem a reflexão e a mudança de costumes ocorrida durante os anos sessenta e setentam e nas décadas seguintes, quando a transição já havia ocorrido, mas essa desconstrução continuou tão forte quanto antes. A câmera, apesar de contemplativa, participa ativamente, a todo momento – os planos quase sempre abertos descontroem fachadas e máscaras, a falta de método de atuação expõe interpretações naturalistas, com muita pouca criação, e a força se concentrava no roteiro – o que é dito importa tanto quanto é visto, ainda que a narrativa de Rohmer fosse afiadissima e muita precisa, o mesmo se pode dizer de cada diálogo.

Com tudo isso, pode-se dizer que a carreira de Eric Rohmer é um dos capitulos mais ricos da cinematografia mundial.  Desconhecido, sim, mas porém não menos essencial que qualquer outro grande cineasta francês. O rei do minimalismo inteligente. E Pauline na Praia é um dos maiores exemplos disso tudo.

4/5

Ficha técnica: Pauline na Praia (Pauline à la Plage) – França, 1983. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Amanda Langlet, Arielle Dombasle, Pascal Greggory, Féodor Atkine, Simon de la Brosse

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