por Bernardo Brum

Revolucionário discreto, Rohmer nem parecia fazer parte da mesma onda do alucinado e sarcástico Godard e do dramaticamente intimista Truffaut. Seus filmes intentavam desnudar a alma humana através de, essencialmente, diálogos analíticos, movimentos de câmera e de atores discretos, fotografia naturalista. Tal delicadeza e sutileza para tratar dos temas que eram do seu interesse jamais devem ser confundidos com alguma espécie de pudor, mas sim extrair variados estímulos  a partir de uma abordagem quase cotidiana.

É através de Jerome, interpretado por Jean-Claude Brialy, que O Joelho de Claire abordará através da usual forma de abordagem de Rohmer o desejo, a infidelidade e as pequenas hipocrisias da classe alta. Diplomata prestes a casar, Jerome encontra em suas férias Aurora, amiga de longa data e escritora. Ela se hospedou na casa de uma senhora que tem duas filhas, Laura e Claire. Logo a intelectual estimula o amigo a aproveitar os últimos dias de  solteiro com Laura, que demonstra-se atraída pelo tiozão. Eles começam um caso, um tanto ingênuo, baseado em conversas, andar de mão dada e olhar a natureza juntos, que logo reflete no desejo de Jerome pela irmã – bem mais sensual, que não se interessa por ele ou por homens mais velhos e também um tanto mais emocional. Para a diversão da escritora, o diplomata passa a descrever passo a passo a quantas anda o processo de sedução da lolitinha e o seu desejo meio louco de acariciar uma parte da anatomia: o seu joelho.

É sob esse conflito simples que o resto do filme se desenrolará em tom levemente cômico – já que o diretor não se permite a muita exposição ou excesso. A narrativa tipicamente character-driven, onde através dos longos diálogos com a amiga ficaremos sabendo todas as impressões do personagem a respeito do caso, repercurtem o filme inteiro, tornando closes inocentes quase obscenos: quando Claire fica nervosa e triste, o contato da mão consoladora de Jerome com o joelho parece quase como um assédio sexual. O contato de um dedo com essa parte do corpo vira uma roçada dissimulada. Se Claire sobe na escada e Jerome olha a sua junta, o prazer proibido aparece mais uma vez.

Para grande parte do público, Rohmer pode até passar despercebido; contudo o seu estilo peculiar, quase silencioso, de através da compreensão da montagem empreender rios de desejo carnal e desconstuir os pequenos erros, pecados e imperfeições de todos nós, deixou um legado enorme: daquele que se utilizou do cinema de autor não para apenas diferenciar-se dos demais, mas para entrar em contato com o espectador e falar de dramas e ironias em comum.

4/5

Ficha técnica: O Joelho de Claire (Le Genou de Claire) – 1970, França. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Jean-Claude Brialy, Aurora Cornu, Béatrice Romand, Laurence de Monaghan, Michèle Montel, Gérard Falconetti, Fabrice Luchini

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