por Bernardo Brum

Tanto em Nova York, Cleveland ou Flórida, tanto na praia quanto no frio, em apartamentos, corredores e casas humildes, o tédio nos aprisiona. No preto-e-branco, no cinzento, na estática. Durante a quase uma hora e meia no filme, Jim Jarmusch nos apresentará sequências filmadas em um único plano, não de forma virtuosa ou impressionante. Pessoas viajando de carro, pessoas jogando cartas, assistindo televisão. Simples assim. A elipse entre uma cena é uma tela preta. Sem falar muita coisa profunda (ou melhor, nada de profundo). Nós mal falamos, e quando falamos, é para discussões de quinze segundos, ou constatações idiotas.

Essa atmosfera domina cada fotograma do filme, e o tempo esculpido por Jarmusch é o tempo das camadas baixas, dos derrotados, dos medíocres e dos sem-futuro. Não há vez para quem não alcançou a alta roda, não há chance para quem não se deu bem na vida. Resta o tédio, as conversas sobre música, bebida e cigarro, sobre cultura inútil, restam os jogos, as andanças pela praia, os movimentos mínimos de câmera, a falta daqueles cortes que o mercado americano nos acostumou a exigir. A falta de grandes atuações, a presença de atores deitados, fumando e resmungando e não representando muita coisa – pro mundo, pra dramaturgia, só pro filme.

Claro, há também a presença de espírito insistente do understatement, dos fatos tristes e desoladores serem acobertados pela camada de ironia e humor utilizados como eufemismo. O ridículo, o improvável, o tosco e o pitoresco, a assimetria e a imperfeição de lugares, de pessoas e de situações distanciam a película do transcendente, do especial, do distinto e do sublime. As sequências de Estranhos no Paraíso tem o ritmo da vida, tem a partitura de pessoas paradas, dos sons (sejam eles de aparalhos eletrônicos ou da natureza), das frases curtas, dos suspiros de quem não tem nada para fazer. Tudo é retratado como o ícone do desesperado acomodado, da desistência, enfim; o espírito de “nós somos perdedores, temos que viver com isso”.

E em todos os filmes posteriores, Jarmusch jamais mudou a essência que também estava contida neste. Azar de quem esperava a aventura, a ação e os muitos cortes, o suposto dinamismo erigido por um século de cinema. E continuamos testemunhando personagens tão desgraçados e miseráveis quantos os desta feita. Aquele desajuste tão grande quanto o de Screamin’ Jay Hawkins, que nem a Flórida nos salva.

5/5

Ficha técnica: Estranhos no Paraíso (Stranger Than Paradise) – 1984, EUA. Dir.: Jim Jarmusch. Elenco: Richard Edson, John Lurie, Eszter Balint, Cecilia Stark, Danny Rosen, Tom Dicillo, Richard Boes, Paul Sloane

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