por Bernardo Brum

A Hora do Pesadelo figura, provavelmente, como o filme mais bem acabado que Craven já entregou para a Sétima Arte: consegue atingir, confortavelmente, um meio termo entre a violência exploitation de Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos, o roteiro bem bolado inteligente de A Maldição dos Mortos-Vivos e a acessibilidade de Pânico.

A história real de um moleque de um pais asiático que teve um sonho tão horrível que morreu dormindo convergeu para a idealização e criação de Fred Krueger – e poucas vezes, o subgênero slasher teria outro vilão com um conceito tão original e um background que realmente funciona, ao invés das muitas besteiras e incorências da história de, por exemplo, Jason Vorhees em Sexta-Feira 13. John Carpenter em Halloween – A Noite do Terror já tinha avisado, ora bolas: se você não tem uma história realmente boa na mão, então não explique muito.

Craven segue esse recado de uma forma muito funcional: pouco sabemos além do básico, que Krueger era um pedófilo psicótico que foi queimado vivo pelos moradores da Rua Elm, e então volta para vingar-se, queimando seus filhos. O fato de todos os pais terem relações problemáticas com suas proles, apesar de ter certo valor semiótico, tem um valor muito maior na história – Craven cria um suspense incrível quando exibe o assassino de todas as formas – nas sombras, esticando os braços, nos corredores de uma escola, se auto-mutilando, deformando o tempo espaço – e deixa o grupo protagonista de adolescentes e o espectador ilhados sabendo que aquela história só pode ter um desfecho dos mais cruéis – não quando você está sozinho, não quando ninguém acredita em você, não quando você tem que ficar acordado o tempo inteiro. Se o ser humano tem medo do desconhecido,  o medo que ele tem da solidão é mito maior.

Aliás, é nessas cenas de pesadelos que Wes se realiza como um cineasta, distorcendo tempo, espaço, realidade e sonho ao seu bel-prazer – desde o início, em que closes de uma garota perdida em algum lugar desconhecido e todo branco chocando-se contra imagens de mãos deformadas por fogo fabricando uma luva cheia de navalhas até a impressionante morte em que a mesma garota, mais para frente, é arrastada pelas paredes e tetos e é retalhada impiedosamente, entedemos então qual é a do Craven e pensamos que, sim, ele merece estar naquela galeria de “Masters of Horror” – poucas vezes um cineasta conseguiria aliar instintos violentos e delírios aterrorizantes de forma tão tensa e marcante e, ainda por cima, saber vender o seu produto de modo a tornar o filme e a mitologia ícones da cultura pop.

Esqueça todas as bobagens posteriores, esqueça o fantasminha da mãe de Krueger, esqueça Fred se materializando no mundo real, esqueça garotas telepatas combatendo o vilão, esqueça ele renascendo através de um útero zoado. Esse sim, é o verdadeiro pesadelo na Rua Elm.

4/5

Ficha Técnica: A Hora do Pesadelo (A Nightmare On Elm Street) – 1984, EUA. Dir.: Wes Craven. Elenco: Robert Englund, John Saxon, Johnny Depp, Ronee Blakley, Heather Langenkamp, Nick Corri, Amanda Wyss

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