– por Guilherme Bakunin

A classe trabalhadora não tem pátria”. O poeta finlandês dos desamparados volta a arrebatar multidões, pelo menos as capazes de sentir, quando em 1990, num trabalho filmado em homenagem ao recém falecido (à época) Michael Powell, lançou este trabalho solitário, melancólico e singelo. Jean-Pierre Léaud, o eterno Antoine Doinel de Os Incompreendidos encarna com a maestria de um gênio o típico herói inexpressivo kaurismakiano, só, pobre, miserável e que irá, sempre durante os curtos filmes, encontrar uma mulher tão perfeitamente podre que a paixão é cintilante, instantânea.

Henri Boulanger é francês, mas vive em Londres, e agora está desempregado. Sem lar, sem afeto, Henri tenta suicídio, mas é incapaz de fazê-lo. Determinado a morrer, decide contratar um assassino de aluguel. No dia marcado para sua morte, conhece uma mulher, numa das cenas mais bizarras da década de 90: uma vendedora de flores, à meia-noite num pub. Com a repentina paixão, muda de ideia e resolve continuar vivendo, mas encontra problemas ao não encontrar os contratantes.

Kaurismäki anda por uma Inglaterra devastada e tão miserável como seus personagens moribundos, forçando o olhar do espectador a imagens feias, cruéis, e sem nenhum pudor, acentua progressivamente a miséria naquelas pessoas que, sem outra alternativa, continuam na luta por seus vãos objetivos, terminando inexoravelmente em um beco úmido e fedorento. O cineasta, de poucas palavras e poucas imagens, faz questão de conduzir sua trama sem sentimentos, sem emoção. Os desamparados de Kaurismäki são andróides, robôs da sociedade que, cada vez mais humilhados e mutilados pela vida, cada vez menos vontade possuem de lutar por ela. E não é por acaso que em menos de 80 minutos o diretor faz questão de prolongar as cenas até que as portas se fechem. Independente de onde você é ou do que você fez, o mundo é o seu lar e nele você não encontrará oportunidades. A vida te oferece portas fechadas e ruas sem saída, socos na cara e relógios de ouro, e Henri não tem outra escolha senão refugiar-se novamente, pois na Inglaterra, seu lar por quinze anos, assim como na França “não o querem por lá”.

E não se assuste com a facilidade das soluções no roteiro, com a robótica da direção ou com a obviedade dos relacionamentos: a obra de Kaurismäki é essencialmente social, realista, então assim como seus heróis encontram esperança no amor de uma não tão bela mulher, nós, cúmplices de todo os seus desesperos, encontramos fôlego na arte, no cinema, onde, com um rápido olhar e umas rudes palavras engatilhadas por whisky e cigarros, o amor e o refúgio podem salvar vidas.

4/5

Ficha Técnica: Contratei Um Assassino Profissional (I Hired a Contract Killer) – Finlândia/Inglaterra/França/Suiça/Alemanha, 1990. Dir.: Aki Kaurismäki. Elenco: Jean-Pierre Léaud, Margi Clarke, Kenneth Colley, T.R. Bowen, Imogen Claire, Tex Axile.

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