por Bernardo Brum

Um maníaco sequestra as vítimas – todas elas garotas lindíssimas – até o porão de algum lugar abandonado. Lá, tortura elas longamente, cortando os dedos, esmagando os ossos, mutilando os lábios…

É, Dario Argento tapeou meio mundo ao chamar de Giallo um filme que não é, via de regra, um giallo. E para os puristas com fricotes, com alguns elementos do sub-sub-subgênero torture porn. Um assassino que não usa as luvas pretas, não empunha aqueles faconaços reluzentes, que não mata as vítimas de primeira, que Dario Argento revela a identidade nos primeiros minutos, explicando sua origem em seguida por flashback…

Dos “filmes amarelos”, só restou o detetive e a companheira com algum elemento que a liga diretamente com a série de crimes. Aí que Giallo se apresenta como um filme sóbrio, maduro e consciente de si – mas nunca, nunca menos pirado ou delirante por conta disso. Cada morte violenta ainda esconde o prazer culpado de Dario Argento: a brutalidade terrível combinada com apuro estético tremendo, a eterna busca do diretor por uma imagem que cause a tal da síndrome de Stendhal no espectador.

Mas acontece que o filme é um giallo “revisionista”. Não apenas do subgênero que quer fazer conexão e discutir sobre, mas, talvez, de todo o cinema fantástico italiano que teve seu auge entre os anos sessenta e oitenta. Os faconaços só reluzem em flashback, a violência só é filmada dentro de quadro da mesma forma. E o mistério também só existe lá. À época presente que o roteiro conta, a câmera desvia da violência e nos obriga a imaginá-la, o investigador é destruído pelo passado, nós sabemos quem comete aqueles atos horríveis. Sem mais delírios visuais, sem mais roteiros fragmentados, sem mais estímulos sensoriais a níveis ensandecidos e dementes.

Daí, diferente de antigamente, prezar tanto a lógica; daí procurar aprofundamentos psicológicos ao invés do impacto emocional. Mais que isso, analisa a época com certa nostalgia e por que não, melancolia. Nós não temos mistério pra resolver em momento algum. Somos cúmplices hitchcockianos da teia de intricados joguinhos mentais de Argento. Adrien Brody, como investigador, é um “Bogart recauchutado e amarelo”: com certeza todos se lembram do elegante homem amargurado do noir; é hora de lembrar do homem do giallo, aquele tão perto da loucura sensorial o tempo todo que corre o risco de surtar a qualquer momento – porque as coisas simplesmente não acabam do jeito que ele queria, por sua culpa, tão grande culpa, e não há cigarro com chapéu de lado para consolar – resta apenas encarar uma poça de sangue. Ao final, ele fodeu com tudo.

Dessa vez, não vemos nosso reflexo no sangue; há algo entre nós e o sangue, um esgotamento, um esvaziamento, uma impossibilidade da falta de completude. E o filme acaba meio que por acidente, numa sequência filmada de forma quase corriqueira, distanciando-se da ópera de sangue setentista. Sinal dos tempos?

4/5

Ficha técnica: Giallo – Reféns do Medo (Giallo) – 2009, EUA. Dir.: Dario Argento. Elenco: Adrien Brody, Emanuelle Seigner, Elsa Pataky, Robert Miano, Lorenzo Pedrotti, Silvia Spross

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