por Bernardo Brum

Algo a ser notado nas obras do coreano Bong Joon-Ho: chove muito nos seus filmes. Praticamente o tempo todo. E aqui, em O Hospedeiro, a água é terrível. Não por causa do monstro que vive lá, um bichão super desenvolvido e anabolizado por causa de um cientista americano autoritário e arrogante. Tal qual o abismo de Nietzsche, quando nós olhamos para a água daquele rio, vemos a nós mesmos.

Mas porque assim como a sequestrada Hyun-seo perdemos a inocência. Somos pré-adolescentes, e temos que enfrentar a morte. Temos que lutar por nossa sobrevivência. E se um dia escaparmos de toda aquela loucura, não iremos querer uma vida feliz, tranquila e pacífica com a nossa família: iremos querer uma bela lata de cerva geladinha.

Porque assim como Gang-du, nós somos pessoas medíocres. Podemos ser diferentes – podemos até pintar nossos cabelos e sofrer de uma curiosa deficiência de vitaminas que nos faz cair no sono toda hora, mas somos mais um na multidão. Se nossa filha for sequestrada por uma criatura horrível, se entrarmos em contato com a mesma e formos suspeitos de possuir um vírus contagioso, nós não vamos conseguir nos comunicar com ninguém. Ninguém vai acreditar na gente. Ninguém vai acreditar no que contamos. Todos vão achar que nos estamos apenas sob efeito de trauma. O sistema nos enclausura, nos dopa e realiza as operações de praxe. Mas não nos garante nada. Não dá oportunidade de crescimento ou destacamento. Os poderosos nunca serão afetados pelo monstro ou contaminados com seu suposto vírus. Eles estão longe, bem longe, presos nos seus arranha-céus. Nós, os fodidos, encararemos o monstro toda hora.

Por trás da pecha de “filme de monstro”, Joon-ho esconde o conceito psicanalítico de Freud: o mal-estar da civilização. Melhor, o conceito de Zygmunt Bauman: o mal-estar da pós-modernidade. Nós estamos ligados a tudo, o tempo todo – internet, televisão, celulares. Mas nós estamos ilhados em nós mesmos. Não podemos fazer nada pelo outro. Temos contato com tudo, mas o que possuímos, na realidade?

O monstro nada mais é que o catalisador (ou mediador, quem sabe) de tudo isso: da busca pelos laços afetivos, da busca por um bem maior, etc. e tal. E o filme nunca parará para a reflexão intelectual, para a explicação das causas e sintomas do que nos levou até esse ponto. A certo ponto, começará a ser tocado em ritmo anárquico, dramático, cômico e revoltado na mesma medida. O final explodirá em imagens inacreditáveis com coquetel molotov, flechas flamejantes, barras de ferro utilizadas como lanças, agente laranja e câmera lenta pelo motivo mais triste do mundo: nós somos incapazes, nós não somos indivíduos e o sistema é maior do que nós.  “Minha família é uma merda, eu nunca fiz nada de bom na vida, minha filha está deus sabe onde, sou um foragido da lei”. Quem é o culpado? E quem será o bode expiatório de Gang-du? O monstro.

Meu medo é que, ao sair do túnel de merda, ossos e lixo, não tenha cerveja do outro lado.

5/5

Ficha técnica: O Hospedeiro (Gwoemul) – Coréia do Sul, 2006. Dir.: Bong Joon-Ho. Elenco: Kang-ho Song, Hie-bong Byeon, Hae-il Park, Du-na Bae, Ah-sung Ko, David Joseph Anselmo, Brian Rhee, Ah-sung Ko

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