– por Luiz Carlos Freitas

“Quem é essa tal de Rosebud?”. É certo que nós já nos questionamos sobre isso em dado momento de nossa vida cinéfila. Mesmo quem nunca assistiu ao filme do Welles já deve ter ouvido ou lido em algum lugar (sites, revistas, discussões em rodinhas de cinéfilos, etc) sobre “essa tal de Rosebud”. Mas não se sinta constrangido caso não saiba de onde vem o termo, tampouco irritado. Esse questionamento nada mais é que o ponto de partida da trama daquele que é, provavelmente, o filme mais importante já feito de toda a história do cinema.

No filme, o milionário Charles Foster Kane (Welles), um dos homens mais ricos e poderosos do mundo, profere sua última palavra em leito de morte: “Rosebud!”. À partir daí vemos a busca do repórter Jerry Thompson (William Alland) por respostas sobre essa tal de Rosebud. Quem era? Qual a importância dela? É nessa busca que acompanhamos a reconstituição da vida desse homem que era tão respeitado quanto temido (e odiado), fatos de sua infância até a vida adulta, mostrando como alcançou todo o seu sucesso.

Contudo, difícil analisar Cidadão Kane e seu caráter transgressor sem falar do gênio por trás de tudo. Orson Welles, com apenas 26 anos à época do lançamento (é, ainda tenho um tempinho para tentar revolucionar algo), já atraia as atenções a si há tempos. Cinco anos antes, já escandalizara ao dirigir para o teatro sua livre adaptação de Macbeth, de Shakespeare, transportando a trama para o Haiti e dando vida à estória com um elenco inteiro de negros. Porém, o impacto maior viria em 1938, quando faz sua versão radiofônica de Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, com o ‘pequeno’ detalhe de que fez a narração do livro em tom de notícia de última hora, deixando todo um país em pânico ao realmente acreditar que estavam diante de um extermínio alienígena. A brincadeira, além de uns suicídios, ondas de violência, saques a lojas e um pouco de depredação por parte dos mais afoitos com o possível ‘fim do mundo’, rendeu a Welles total prestígio e credibilidade para rodar seu primeiro filme. Porém, ao mesmo tempo em que apareceram os que viam nele todo o seu potencial de gênio, vieram os que ofereciam troféus por sua cabeça. Era um novo gênio que surgia. E um gênio maldito.

Seu primeiro contato com o estúdio foi uma recusa, ao propor adaptar a obra de Joseph Conrad, O Coração Das Trevas (adaptação que, bem mais tarde, Francis Ford Coppola nos presentearia com o título de Apocalypse Now). Sendo assim, assume a empreitada de contar uma história sobre o ‘Sonho Americano’ e sua decadência. O projeto novamente é modificado, substituindo o biografado, o milionário esquizofrênico Howard Hughes (que também teria sua história transposta nas telas décadas após pelas mãos de Martin Scorsese – O Aviador), pelo magnata da imprensa William Randolph Hearst, e saindo o título América e firmando-se como Cidadão Kane.

No filme, o jornalista Thompson inicia uma série de investigações e entrevistas a fim de reconstituir a vida de Kane, momentos estes que nos são apresentados por meio de flashbacks ao longo da trama. Sua trajetória de vida é a representação do sonho americano: Kane veio do nada, iniciando um pequeno negócio e, fazendo uso de todos e quaisquer recursos e meios disponíveis, indo em busca do sucesso, do poder e, acima de tudo, da imortalidade de seu nome. Kane queria ser lembrado, virar referência. Essa era sua maior ambição e, por conseguinte, finalidade de vida. E, assim como tantos outros que o tentaram, a sucessão de fracassos (perdeu amigos, mulher e filho – estes num acidente – e deixado pela segunda esposa, não conseguiu vencer em cargo eletivo e até mesmo seu patrimônio tinha se esvaído) o transformou, tornando aquele jovem idealista em um velho solitário e amargo que, recluso em seu castelo, lutava para manter o que sobrara de humano em si.

Ao contrário do que muitos pensam, Welles não inventou todos esses elementos. A estética do filme se deve muito mais ao modo como ele os aplicou, pegando boa parte desses artifícios que já haviam sido utilizados e encaixando-os dentro da narrativa. Os flashbacks como ponto de ligação entre as elipses da trama, longos planos-sequência, ângulos de câmera diferenciados (o reflexo da enfermeira no globo de vidro quebrado no chão logo no começo), disposição dos cenários (coisas como filmar o teto de um quarto, hoje bem simples, mas bastante inusitada àquele tempo) e dos planos (tínhamos primeiro e segundo plano alinhados num mesmo campo de visão), além de toda a carga simbólica de algumas cenas, como a figura de Kane multiplicada diante dos espelhos (a representação do sentido que ele procurou dar à sua vida: a perpetuação de sua imagem até, como nos infinitos reflexos de dois espelhos frente à frente, além de onde era possível ser alcançado), ou o “Entrada Proibida” na porta de sua mansão que abre e encerra o filme (o homem impenetrável em toda a sua existência) e, o maior de todos, Rosebud.

Rosebud, em tradução literal, “Botão da Rosa”, é referência clara ao clitóris. Seu significado está diretamente ligado ao grande trauma da infância de Kane, a separação traumática da mãe. Dentro desse contexto, seria a representação da figura materna que o faltou. Aliado aos demais elementos da trama e fatos de sua vida que nos são apresentados, Rosebud pode ser tida como a dor da perda e o que restara de humano em Kane. Sua vida marcada por excessos, luxúria, ambição e ganância desmedidas o trouxe inúmeras conquistas no campo material, mas não conseguiu evitar que, ao fim, ele fosse uma pessoa infeliz, vazia. Clamar por ‘ela’ em seu leito de morte era como buscar por uma redenção que não viria mais, um último arrependimento de um homem que não tinha mais nada além do seu dinheiro e má-reputação e que, ao fim, reconhecia que poderia ter sido realmente feliz se não tivesse tido tanto dinheiro e poder.

Mais que uma simples analogia, Rosebud era transgressão. Em 1941 o universo sexual feminino ainda era uma grande incógnita. Os estudiosos à época, decorrentes de Freud, ainda sustentavam-se nas teorias de que o prazer da mulher era intra-vaginal, ignorando a função do clitóris. Welles o coloca exatamente como a representação do prazer, o ponto de conforto de Kane, seu acalento na hora da morte. Tudo feito com a sutileza exata digna do gênio de seu grande realizador (ou melhor, realizadores – além do aval do estúdio, temos Herman J. Mankiewicz – irmão de Joseph Mankiewicz, diretor de A Malvada – merece todos os méritos na elaboração do roteiro com Welles).

Imprescindível citar o impacto de Kane ante o Cinema Clássico. Os esquemas das tramas, até então, eram ‘fechados’, lineares. Cidadão Kane foi uma representação deliberadamente fragmentada da história, com todos os elementos e recursos já citados, mas com o diferencial na obscuridade da trama, dos personagens e seus destinos. A investigação de Thompson pode ser vista como uma grande alegoria a isso, uma vez que, ao fim, apenas nós sabemos o significado de ‘Rosebud’, sendo o repórter a representação física disso; não vemos o seu rosto, não o identificamos por completo em momento algum, apenas suas costas, ou vultos. Ele seria a versão da história, sombria e incompleta, conhecida apenas por nós. Era Welles nos mostrando seu novo conceito de cinema, onde a verdade se afasta dos participantes da trama, aproximando cada vez mais os espectadores de um posto de ‘deus’, oniscientes e onipresentes. Essa ruptura com os moldes do Cinema Clássico foi, provavelmente, o que mais impactou e influenciou, dando os primeiros passos (ao lado de Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rosselini – marco inicial do Neo-Realismo) do Cinema Moderno e e foi um dos inspiradores da Cahiers na teoria do cinema de autor.

Ironicamente, Welles, o já citado ‘Gênio Maldito’, foi vítima do seu próprio ‘Kane’. Hearst foi um de seus maiores perseguidores, fazendo uso de toda a sua influência para boicotar o filme de todos os modos possíveis, fazendo com que a obra ficasse décadas sem o merecido reconhecimento, o que só conferiu, mesmo que tardiamente, mais força ainda à obra e sua mensagem. A crítica à Indústria Cultural (ou Cultura de Massas), que estava se firmando cada vez mais forte, era implacável. E, assim como Chaplin em seu Tempos Modernos, e Lang com Metrópolis (guardando as devidas proporções da comparação), que já viam o homem sendo condicionado a um triste papel de ‘peça’ de um grande sistema manipulador, mecânico, fazendo de suas obras um meio de alerta, Welles usou seu Cidadão Kane para abrir os olhos à mídia e seus artifícios, esmiuçando o que hoje conhecemos como ‘Quarto Poder’ e que, de certo modo, pode ser mais perigoso ainda, uma vez que é a manipulação pela indução ideológica (e um pouquinho de coerção, claro).

E se antes o sentimento era de revolta pelo ostracismo a que o filme foi sujeito, hoje a obra gera controvérsias por muito se discutir, por meio de listas e eleições de críticos especializados, se ele é ou não “o melhor filme de todos os tempos”. Realmente, definir isso é tão ingrato quanto desnecessário. Não dá, não tem como definir isso sem atiçar discussões sobre o gosto pessoal. Porém, uma coisa é certa, e isso vai muito além do gosto pessoal: querendo ou não, a importância de Cidadão Kane é inquestionável. Poucos filmes tiveram um caráter tão transgressor-revolucionário dentro da história da Sétima Arte até hoje e, lamento acreditar que dificilmente outro chegará a ter. Claro, determinismos como esse são de um reducionismo arriscado, por isso fujo do tom de ‘afirmação’.

Por isso, me limito a aguardar (mesmo duvidando).
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5/5

Ficha Técnica: Cidadão Kane (Citizen Kane) – EUA, 1941 – Dir.: Orson Welles – Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Ray Collins, Erskine Sanford, Everett Sloane, William Alland, Paul Stewart, George Coulouris, Fortunio Bonanova, Gus Schilling, Philip Van Zandt, Georgia Backus, Harry Shannon

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