por Alexander DeLarge

Quando eu ainda tava na cama do hospital, me disseram que queriam fazer um filme sobre mim.

Não sei, eu falei. Já fizeram livro, não gosto muito do livro, não fui com a cara do autor, Anthony Burgess, ele só escreveu porque tava com um tumor na cabeça e tinha que ganhar dinheiro pra putinha dele sobreviver. Eu não li o livro, não gosto de ler, não gostei do título “Laranja Mecânica”, que porra é essa? Não gosto de laranja, não gosto de manga, gosto de leite, aí é jóia.

Aí eu falei não sei de novo. Eles me apresentaram um tal de Stanley Kubrick. Eu tinha visto um filme dele, não me lembro o nome, tinha um robô vermelho no espaço, eu me cagava de medo quando o robô falava, mas não conta isso pra ninguém, muito menos pros droogies. Mas eles já morreram, eu acho, ainda bem, mas o Stanley eu tenho certeza que sim, ele era gente fina. Eu fui com a cara dele, então deixei ele dirigir o filme.

Eu ficava no estúdio durante as filmagens, o pessoal ficava me bajulando, me trazendo leite, perguntando se tudo tinha sido daquele jeito mesmo. Era tudo exatamente igual, eu dizia, o Stanley era foda, ele queria fazer tudo exatamente igual, era um perfeccionista. Às vezes era mais bonito do que na realidade, oras, não é assim que é pra ser o cinema? A leiteria era linda, Londres tava linda demais, meu quarto tava do caralho, a produção tinha conseguido todos os LPs do Beethoven pra decorar o quarto, até aquele cortina fodástica! Roubei tudo quando as filmagens acabaram.

O ruim é que eu ficava me lembrando do meu passado, nostalgia é um troço chato. Me lembrava de quando eu e os droogies barbarizávamos por aí, roubávamos carros, espancava uns filhos-da-puta que a gente encontrava por aí, esse mendigos sujos e idiotas. Recordei do dia que enrabei a esposa daquele escritor, aquilo foi irado, não sei porque decidi cantar Cantando na Chuva aquela hora, acho que foi pra aliviar a tensão. Além do mais, eu tava tão mais feliz quanto o Gene.

Mas teve uma vez que a coisa ficou feia. Tava ficando tensa a relação entre eu e os droogies. Estavam organizando alguma coisa contra mim, eu tava percebendo então dei uma lição neles. Machuquei eles um pouquinho, cortei a mão do Dim com um punhal que eu tinha, nada demais. Logo depois eles vieram com a historinha de uma velha que morava não sei aonde e era pra gente ir lá. A gente foi, eu entrei, tinha um pinto enorme de gesso em cima de uma mesa, “arte contemporânea” como dizem as bichas, e acabei matando a velha com o pinto, por acidente. Os droogies me bateram com uma garrafa de leite na cara e fugiram, me deixaram machucado lá no chão, bando de traidores! Traidores!

Me prenderam. Eu, Alex, preso, jogado numa latrina de retardados e idiotas, comparado gratuitamente com estúpidos. Aquele amontoado de policiais, vontade de… Sei lá do que, porra! Tenho que dizer tudo agora, é?

Só sabia que queria sair dali o mais rápido possível. E curado. Curado do que? Sei lá, da minha doença que diziam que eu tinha que provocava toda a violência que eu provocava, algo sim.  Papo técnico demais, tavam tentando definir porque minha geração é assim. Ora, alguém vai saber porque é violento demais? Pode falar o que quiser, mas todo bichinho miúdo até o mais grande homem tem vontade de sair dando umas porradas por aí. Eu fazia o que todo mundo tem vontade, vem me dobrar, vem.

Mas eu queria sair dali, curado é pretexto. Aí eu me inscrevi no projeto de uns médicos pomposos e me puseram numa sala de cinema pra ficar vendo filmes. Eram vídeos legais, tinha uma gente bacana comendo umas meninazinha lá. Arregalaram meus olhos (cena mais foda do filme, fala aí!) e um cara ficou pingando colírio no meu olho pra não ressecar.

Entretanto, teve uma hora que começou a incomodar. Me dava um coceira, me incomodava aquela camisa de força. Piorou quando começou a tocar do magnífico Beethoven. A nona sinfonia! Tavam usando a nona sinfonia num experimento horrendo de controle do ser humano,  me dava vontade de vomitar vendo aquela escória usando essa brilhante música para meios tão imundos e terrenos. Eu berrava, berrava, berrava, ninguém me ouvia! Ninguém ouvia!

Uma hora acabou. Ufa. Me soltaram. Me jogaram na rua de novo, eu nem sabia que tinha virado notícia, nos jornais só se falava do rapaz violento que havia sido cobaia de experimentos governamentais. Mas eu tava curado. Violência nunca mais. Tentei voltar pra casa dos meus pais, mas eles não deixaram porque o quarto já tava alugado. Rolou choro, tentei reivindicar meu lugar, mas não consegui, tentei socar o filhinho-de-papai que tava no meu lugar, mas não deu. O experimento tava dando certo. Violência nunca mais.

Mas só pra mim. Não sei como, mas coincidências é algo foda, não? Você pode não acreditar, mas eu encontrei todo mundo que eu tinha conhecido antes da prisão, absolutamente todo mundo. O mendigo que eu tinha espancado, os velhos droogies que eu tinha jogado no rio, o marido da putinha que eu tinha comido. Encontrei todos e em nenhum eu consegui encostar um dedo. Eles me agrediam, cuspiam, me afogavam, podiam até ter me estuprado, mas não conseguia revidar. Eu ficava parado, imóvel. Um cara depois me disse que o Estado tava incrustado em mim, a mídia e a política governamental de controle tinham criado um órgão dentro de mim, logo se vê que esse cara é um desses pensadores que se acham o dono da opinião só porque tem um espaço em em algum jornal pra ricaços. O que esse cara sabe sobre mim, sobre essas porras de política? Ah, vai tudo tomar no cu. Não dá pra catalogar violência.

É pra falar sobre o filme eu falo: achei o filme foda. Aquelas cores de cabelo berrantes, as atuações canastras-shakesperianas (te surpreendi agora, hein? Eu sei falar palavra difícil também), Beethoven ficaria orgulhoso de ouvir a música dele num filme foda como esse. Tudo mudou depois dele, até a violência. Aquele maconheiro do Tarantino só faz violência estilizada porque antes houve violência bem mais estilizada do que a dele, e prova final tá no meu filme, ops, do Kubrick. Ninguém se esquece de mim, ops, do Malcolm, tomando leite, puxando o punhal na margem do rio, cantando e sapateando. Ninguém, porque o Malcolm é foda. Porque o Kubrick é foda. Esses dois carinhas deixaram uma marca inesquecível no mundo por que são profissionais, sabem o que fazem, meu, eu vi o Kubrick pegando na câmera, eu sei o que eu to falando! Muito sangue do bom, muito vermelho, como diria a bichinha do Godard, não teria sem mim e esses outros dois. E, depois do Che Guevara, a camiseta com o cartaz do filme é mais famosa da história. Os alternativos gozam quando vêem aquela estampa!

E o legado da minha ultraviolence repercute até hoje. A gente vê adeptos da ultraviolence em qualquer canto. Aquele Ewan McGregor do Traispóttin e o porra do Tyler Durden são versões cuspidas e escarradas de mim, prestenção. Teve até aquele mané que matou umas pessoas dentro do cinema quando tava vendo Clube da Luta (Fincher é outro foda, mas Pitt é um zé-ruela). Mané que deixou ser pego, podia ter fugido e ter enfiado umas balas no pessoal que tava de fora. Gente que toma leite do bom não faz merdas como essa.

5/5

Ficha Técnica: Laranja Mecânica (Clockwork Orange) – EUA, Inglaterra,  1971. Dir.: Stanley Kubrick. Elenco: Malcolm McDowell, Warren Clarke, Patrick Magee, Sheila Raynor, Michal Bates

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