por Cauli Fernandes

Em Hiroshima, há corpos amontoados e carbonizados. Em uma cama de hotel, há corpos amontoados e carbonizados, mas não por fogo ou radiação, e sim por paixão e loucura. Mas não vemos Hiroshima nessas imagens. Não, vemos tudo.

Conjugar verbos nesse texto é errado. Incutir noções tempo em palavras é ato falho ao discorrer sobre um filme que mescla de forma tão sublime o passado, presente e futuro; em um mesmo momento, vive-se aquilo que foi, o que vemos e o que presumimos e, por conseqüência, o peso de um personagem que sente tudo isso só pode ser colossal.

Mas não vemos Hiroshima. Quem não teve a família dizimada por uma bomba estrangeira e irrelevante não sente a dor de Hiroshima. Amigos viraram pó atômico. É única a angústia de observar virar fantasma o lugar que constituí toda a infância. Olha lá a pele em carne viva, metal e homem retorcido, tem mandíbula na latrina.

Não, vemos Hiroshima. A quilômetros de distância, debaixo de campos burgueses, o coração de uma menina francesa virou Hiroshima. Antes, o soldado alemão agonizava no chão, morrendo e se tornando lembrança. Antes, ele e ela pertenciam ao céu, ao carbono e suor que o outro exalava, a grama debaixo do corpo. Depois, o soldado alemão agonizava no chão, morrendo e se tornando lembrança; ela se abraça nele, um último toque, por favor. Depois, ela é jogada no porão para raspar pedras e gritar sem ninguém na sala de visitas ouvir, por favor, que falta de educação.

Mesmo com tanto sentimento, política e história também se permeiam pelo filme, o que o torna um organismo vivo. Por desenvolver tantos temas relevantes com desenvoltura e inteligência, a película injetou um vigor vital na história do cinema. Em 1959, 14 anos após a bomba atômica, Resnais usou essa ferida aberta para construir uma narrativa inovadora utilizando ferramentas tão diferentes: imagens de documentário, câmeras subjetivas, diálogos repetidos com cadência poética, metalinguagem. Isso resulta em uma unidade pensante, que empurrou o cinema para o status de arte capaz de se afirmar e de se discutir. Além de abrir as portas (junto com Acossado, de Godard, que também promove uma mudança na linguagem) para uma das fases mais ricas e líricas do cinema: a Nouvelle Vague.

Mas somos capazes de ver Hiroshima? Não, não somos. Mesmo estando no hospital, na Praça da Paz, no museu, mesmo tendo visto os chumaços de cabelo. Quem viu Hiroshima virou lenda mal contada.

5/5

Ficha Técnica: Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima, Mon Amour) – França, 1959. Dir.: Alain Resnais. Elenco: Emmanuelle Riva e Eiji Okada

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