– por Luiz Carlos Freitas

Meu filme é um far-west sobre o III Mundo. Isto é, fusão e mixagem de vários gêneros. Fiz um filme-soma; (…) Do documentário, a sinceridade (Rossellini); do policial, a violência (Fuller); da comédia, o ritmo anárquico (Sennett, Keaton); do western, a simplificação brutal dos conflitos (Mann). (…) Porque o que eu queira mesmo era fazer um filme mágico e cafajeste cujos personagens fossem sublimes e boçais, onde a estupidez – acima de tudo – revelasse as leis secretas da alma e do corpo subdesenvolvido. (…) Meus personagens são, todos eles, inutilmente boçais – aliás como 80% do cinema brasileiro; desde a estupidez trágica do Corisco à bobagem de Boca de Ouro, passando por Zé do Caixão e pelos párias de Barravento.

– Rogério Sganzerla (Manifesto Sganzerla!)
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É, Rogério Sganzerla era mesmo um boçal. Fez aquela que seria sua maior obra-prima apenas aos 22 anos (sim, esse tipo de informação me faz sentir um inútil à essa altura da vida, mas enfim, prossigamos) e, provavelmente o nosso mais forte ‘produto’ cinematográfico, além de ser um marco divisor do cinema nacional.

Levemente inspirado na história real de João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha, que, além de outros delitos, estuprou cerca de 50 mulheres na década de 60, a trama é o que menos importa aqui. Sganzerla faz um cinema totalmente descompromissado com a construção tradicional da narrativa e a consensual coerência; uma grande teia de referências e críticas, onde sociedade e cinema são mastigados e cuspidos na tela com um virtuosismo absurdo (paradoxal, até) que fazem de O Bandido da Luz Vermelha, definitivamente, um dos maiores representantes do dito ‘Cinema Transgressor’.

Do ponto da cinematografia, o Bandido redefine praticamente todos os moldes estéticos e de narrativa até então, nos guiando por recortes de um jornal sensacionalista e uma narração radiofônica. É, provavelmente, a mais original e inovadora já feita, não tendo sido igualada ou sequer imitada até hoje. Sai também a verossimilhança aparente da linearidade e da cronologia medida à régua e entra a criatividade radical e sem arreios da marginalidade. É um novo tipo de cinema que larga a beleza da crítica do lirismo e a substitui pelo deboche. É (como o próprio Bandido define) “o avacalho”. Esse Bandido (vivido por Paulo Villaça) pode ser visto como o Poeta de Terra em Transe subvertido à sua crítica: ele já não tem mais esperanças, não acredita em salvação ou redenção do seu povo e de sua sociedade. O Bandido é o ‘fim’, um personagem que já desistiu há tempos.  Aliás, não só ao personagem do filme do Glauber Rocha, mas a todo o Cinema Novo.

Esse tipo de cinema (Novo) partia à conscientização, ao caráter social de “abrir os olhos”. Era um tipo de cinema que estava se tornando o cinema ‘oficial’, que falava ao público e se fazia entender até onde possível, mantinha a proximidade para alcançar ao máximo de segmentos. Sganzerla quebra isso e contradiz até mesmo seu próprio conceito de cinema, uma vez que o ‘marginal’ não se aplicava ao pé da letra: sua linguagem era dirigida direta e nitidamente a um público bem mais culto. Era um cinema aparentemente ralé, sujo e boçal, cujo ‘herói’ era justamente um bandido que reclamava de dor de barriga enquanto cagava no mato, mas com uma carga intelectual de valor e peso incomensuráveis e que necessitava ser ouvido e sentido exatamente como era. Ele queria passar a mensagem, mas não estava disposto a ser flexível para que todos a assimilassem. E sorte de quem pudesse entender, azar de quem não o acompanhasse.

Nisso, a metalinguagem tem um papel fundamental. O cinema do Bandido quebra as limitações do Cinema Novo, abandonando seus temas habituais, como a fome, seca, miséria e classes, todos a nível de Brasil, mas com um pezinho nas fórmulas do cinema de fora, e parte rumo ao mundo, à cultura, política, liberdade (e libertinagem), à quebra de purismos, já com os olhos ao que seria feito daqui. O que antes era uma exposição de idéias, agora é um confrontamento de situação-possibilidades, tudo por meio do cinema. E este cinema, para Sganzerla, era mais que ‘panfleto’: uma rede intrincada e complexa de arte, classes sociais, política, vida.

O ideológico é brilhantemente construído pelo autor, que conseguiu impressionar em seu tempo e, após mais de 40 anos, ainda manter-se extremamente atual. A exemplo do personagem do corrupto, vivido por Pagano Sobrinho, representando a quebra de valores no meio político, que hoje já é lugar comum em meio a tantos casos explícitos de escândalos e corrupção, à época, pós-golpe de 64 e repressão, soou incompreensível à maioria e, aos que conseguiram captar a mensagem, deixou um sentimento não menos que aterrador. A narrativa de Sganzerla se mostrou à frente de seu tempo falando justamente de coisas do seu tempo.

E se a opção da narrativa no começo evoca Welles, o final é uma ponte a Godard e seu O Demônio das Onze Horas. Sganzerla usou o francês, que representava o que havia de transgressor em seu tempo, para mostrar seu toque de autor e o que ele queria transgredir. E sai o fim deliberado de um burguês em busca de libertação e entra a morte acidental e debochada de um bandido num lixão. E o mesmo fim ao delegado, que morre sem conhecer o rosto de quem tanto procurava e gritando “Mamãããee!” (não dá, Sganzerla avacalha e não respeita nada e ninguém – nem mesmo seu próprio Bandido sai imune). É a reflexão existencialista do francês que ainda via uma esperança sendo confrontada com a representação política por meio do Bandido que corroborava o sentimento de ‘fim de mundo’, de falta de saída em meio ao caos da periferia.

E, sim, Sganzerla faz do Bandido mais político até que o Belmondo pintado com as cores da bandeira da França: há o fim num lixão, e um fim embalado pelo samba (isso, o mesmo samba que nos faz esquecer por alguns dias de Carnaval de nossos problemas – pão e circo). Aliás, essa revisão da obra de Godard é também seu grito como cineasta. O ‘Pierrot’ do Godard explode em meio a um cenário idílico, belo; nosso bandido se eletrocuta com restos de fios e em meio ao lixo. Ali é o realizador sufocado pelas limitações de fazer cinema no Terceiro Mundo, sempre à margem dos gringos e dependente de suas sobras, tal qual sua Janete Jane (Helena Ignez), musa à altura de Anna Karina, mas tão marginal quanto seu arremedo de nome (meio periferia, meio gringa). Mais uma vez entra a metalinguagem, a prática do cinema e do social pelo cinema e por meio de.

Hoje, mesmo após quatro décadas de seu lançamento, o filme continua tão poderoso e vivo em seu conteúdo que ainda não dá para citar de modo objetivo todos os motivos do cinema do Bandido ter sido o marco divisor que o foi, no máximo arranhar a casca dessa bomba de sátiras. Mas, como ‘arranhar’ somente não combina com O Bandido da Luz Vermelha, só o que acaba nos restando mesmo é curvar e reverenciar esse filho da puta chamado Rogério Sganzerla, que só queria fazer um filme avacalhando boçais como ele, mas que acabou revolucionando o cinema.

Filho da puta.

5/5

O Bandido da Luz Vermelha (Idem) – Brasil, 1968 – Dir.: Rogério Sganzerla. Elenco: Paulo Villaça, Helena Ignez, Pagano Sobrinho, Luiz Linhares, Hélio Aguiar, Sonia Braga.

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