por Bernardo Brum

A única abordagem possível em um filme como Tempos Modernos é a cômica. Cada aspecto do filme é direcionado à regra mais fundamental do humor, a confrontação e o contraste:  o patrão chama o seu subalterno. Ouvimos sua voz em alto e bom tom. Uma máquina nova é apresentada. A gravação dela tem um inglês perfeito com aquele típico tom “esnobe”. Mas os subordinados na escala de poder, como o vagabundo Carlitos ou sua namorada interpretada por Paulette Goddard, não falam. Utilizam-se de letreiros-intertíulos e as expressões físicas e faciais tipicamente exageradas do cinema mudo.

Até aqui, vale lembrar: Chaplin, que havia construído toda uma linguagem de humor visual, foi um dos maiores resistentes à introdução do som no cinema. Quando o fez, foi exatamente dessa forma: criticando a sociedade de sua época. Outras futuras incursões sonoras suas trariam forte apelo político, como O Grande Ditador e Monsieur Verdoux. Mas nunca usando o dispositivo filmíco e as possibilidades de linguagem e técnica de forma tão inteligente feito em Tempos Modernos.

Muito além de conter alguma das mais inspiradas gag visuais criadas por Chaplin, cada uma dessas gags alfineta cada elemento da sociedade atual à época que estava errado para o diretor  – a máquina alimentadora; o homem que cai dentro das engrenagens; Carlitos enlouquecendo e apertando tudo à sua frente com os equipamentos de fábrica; a liderança de um sindicato por um acidente; entre outros, só demonstram as preocupações maiores do diretor, como o homem ser substituído pela máquina a ponto de tornar-se inútil, a facilidade de destacar-se na multidão com um simples anacronismo, e enfim, máquinas que geram dinheiro e prosperidade apenas para quem investe nas mesmas. Quem está na parte inferior da “cadeia alimentar” tem que comer migalhas, morar em qualquer lugar que dê pra dormir, cometer pequenos furtos, fugir de uma lei que favorece só a alguns.

Não deu outra; por conter pesadas críticas à desumanização e perda de identidade que a logística capitalista pode promover, mesmo que travestidas, Charles Chaplin foi acusado de possuir tendências comunistas, o que acabaria culminando no seu exílio quatro anos depois, quando resolver fazer uma crítica escancarada aos regimes totalitários em O Grande Ditador. A Era de Ouro de Hollywood foi muito afetada pelos anos negros da repressão e da paranóia (que acabaria desaguando na absurda e antidemocrática Caça às Bruxas do McCarthismo). Só tendo seu valor reconhecido anos depois como uma das obras fundamentais de um dos maiores cineastas do século vinte e entrando com toda a pompa e realeza nos anais cinematográficos, Tempos Modernos felizmente  mostrou ser algo bem além da tradicional fórmula de se fazer clássicos (“três grandes cenas e nenhuma ruim”) e mostrou o grande agente humano que o cinema pode ser, tanto em forma como contexto. Quem acha um desrespeito a forma que a comunidade cinematográfica e o público de cinema trataram Chaplin, há de reverter a indignação em admiração ao diretor por não se acomodar em chegar lá e ficar sentado no trono feito um bobalhão e fazer filmes burocráticos; mas girar seu cinema em 180 graus e dar ao público não o que ele quer ver e ouvir, mas presenteá-lo com o que ele precisa.

Por esssa e outras, fica difícil mensurar o tamanho e a importância do diretor e de suas críticas na cultura e no imaginário popular. A figura tragicômica de Carlitos, o pobretão que durante sua carreira no mundo imaginado pelo diretor enfrentou os maiores perrengues e dificuldades, mais do que o símbolo do humor, na verdade tornou-se símbolo da capacidade de rir dos seus próprios problemas e continuar caminhando estrada à frente. O símbolo da perserverança anti-conformista que a alta cúpula hollywoodiana e americana não gostaram, mas, mais dia, menos dia, tiveram de engolir; o otimismo do rebelde, em toda a sua beleza.

5/5

Ficha técnica: Tempos Modernos (Modern Times) – EUA, 1936. Dir.: Charles Chaplin. Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Bobby Barber.

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