– por Guilherme Bakunin

Laura é um filme completo sobre um estereótipo noir. Tem lá suas grandes subversões, já que Laura não possui grande apelo sexual, mas ideológico. Na atitude, ela é, sim, plenamente a femme fatale, obstinada, séria, indiferente, decidida. Não é por outro motivo que o filme comece e termine com o retrato da mulher: Preminger quer retratar a mulher daqueles anos, que dá os primeiros e mais decididos passos para a plena emancipação feminina, e cuja simples existência é capaz de arrebatar homens, tramas, crimes e sucesso.

Otto Preminger trabalha com uma espécie de reafirmação do noir, ao dirigir um trabalho que coloca tanto em evidência a figura fatal feminina. Aqui, o cineasta sacrifica um certo realismo para dosar a emblemática Laura com magia, mistério. Laura é quase como uma sereia, jovem, bela, inocente, mas que possui uma aura enigmática que atraí fatalmente todas as pessoas, de corpo e alma, a seu redor. Não é, nem por um segundo, real o fascínio que a simples imagem de Laura exerce sobre os homens e sobre o ambiente. É como se Preminger colocasse aquele quadro ali como forma de simbolizar um portal para uma dimensão além, onde há apenas as mais poderosas e surreais jovens mulheres.

A maleabilidade narrativa é notável. Em menos de 90 minutos, há vários e inteligentes twists, distorções temporais, flashbacks, investigação incessante que retrata o anti-herói característico do noir como mero coadjuvante da beleza estupefata de Laura; homem miserável, ríspido e solitário, que só é capaz de simplesmente existir como protagonista a partir do momento em que cede completamente às graças da jovem.

4/5

Ficha técnica: Laura – 1944, EUA. Dir.: Otto Preminger. Elenco: Gene Tierney, Dana Andrews, Clifton Webb, Vincent Price, Judith Anderson.

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