por Bernardo Brum

Tido muita das vezes como só uma das grandes comédias adolescentes que nasceram com força e vigor nos anos oitenta, Curtindo a Vida Adoidado é um filme de muitos, muitos triunfos. Poderíamos dizer, por exemplo, que uma das vitórias de Hughes consiste em aliar cinema mainstream e autoral de forma totalmente original – um cinema de resposta rápida e humor irreverente aliados com conceitos tipicamente godardianos como a quebra da quarta parede, o uso de letreiros, a montagem descontínua… E tem gente que pensa que todos os exemplares de “cinema moderno anti-ilusionista” limitam-se a cineastas herméticos ou underground. Mas atentem; a todo momento, John Hughes faz plena questão e não te engana: você está assistindo um filme. Ferris Bueller sabe que está dentro de um filme. O filme não procura construir uma outra realidade próxima à real – quando Ferris diz para você aproveitar a vida de vez em quando, ele não está querendo trazer você para a realidade de Ferris. É a SUA realidade que o diretor quer alcançar.

Poderíamos também, comentar do caráter icônico do filme. Matthew Broderick é tão importante para os jovens dos anos 80 quanto James Dean foi para os jovens dos anos cinquenta em Juventude Transviada ou Dustin Hoffman para os sessentistas em A Primeira Noite de um Homem.  Está no mesmo escalão do rebelde sem causa que não sabia do seu papel na sociedade ou o virgem que descobre a América indo no meio das pernas cobertas por meias de seda. É o jovem burguês que já sabe a causa da sua rebeldia e já sabe da falta de moralidade e sobra de sensualidade que o país de megalópoles tem a oferecer. E rebela-se de forma irreverente, inconseqüente, neurótica, contestadora e irresponsável na mesma medida. Os anos oitenta com todos os seus defeitos e qualidades: todo o seu hedonismo e plasticidade, mas também com toda a sua diversão e pequenas irregularidades.

Pode parecer estranho adentrar nos campos semióticos de uma grande comédia teen – mas Curtindo a Vida Adoidado passa a sua mensagem com tanta fluidez e naturalidade que é praticamente impossível resistir à tentação. Tentação tão grande quanto a que a irmã de Ferris sente por um hilário Charlie Sheen interpretando um jovem encrenqueiro chapadão (não que ele tenha mudado muito – a Warner Channel não me deixa mentir, afinal). A toda hora, ora de forma leve e irônica, ora de forma mais séria e dramática, ficamos conscientes do “generation gap”, o buraco entre gerações, que ainda afetava e ainda afeta a América. Hughes sempre nos coloca em cheque os adolescentes e adultos que não se entendem – privilegiando, para variar, o lado adolescente, a maior vítima da história, na maioria das vezes. O lado que não sabe o que quer da vida, perdido entre a irresponsabilidade de criança e as cobranças da vida adulta, oprimidos por um sistema de vencedores que não admite gente folgada. Mas eis que Ferris, Cameron, Sloane e Mia viram tudo isso de pernas para o ar promovendo uma anarquia tão inocente quanto maliciosa – o grande dilema dos grandes filmes à época; afinal, o que fazer, se perder no mundo das pequenas hipocrisias ou ir fundo nos vazios que essa vida muito louca regada pelo capitalismo selvagem nos proporciona?

Mais do que responder, o diretor à toda hora nos pergunta, imitando obras das artes plásticas, nos confundindo e nos divertindo com seus enquadramentos mais do que bem bolados e utilizando o dispositivo cinematográfico para estreitar o caminho entre espectador, criatura e criador da forma mais divertida – mas nunca inconsciente – o possível. Com isso, não deu outra. O adolescente preguiçoso e malandro entrou para os anais da sétima arte, e é capaz de fazer com que muitas, muitas pessoas se identifiquem com suas excentricidades e dilemas até os dias de hoje.

E é isso. Mensagem edificante cansa a beleza!

Leisure rules!

4/5

Ficha técnica: Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off) – 1986, EUA. Dir.: John Hughes. Elenco: Matthew Broderick, Charlie Sheen, Jeffrey Jones, John Hughes, Mia Sara, John Huck, Jennifer Grey

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