por Bernardo Brum

Scorsese sem camisinha. Polanski com abstinência de crack. David Lynch filmando O Massacre da Serra Elétrica. É, já chamaram Abel Ferrara de muita coisa. Só que desconfio que já chamaram o cara de tudo, menos de Abel Ferrara, um dos diretores mais impactantes, chocantes e exóticos já vistos. Não falo isso nem pelo fato do cara ter uma gengiva protuberante. É que obra-prima atrás de obra-prima, Ferrara descarregou para o mundo uma avalanche de psicoses, neuroses e obsessões dos mais variados tipos. E Vício Frenético sempre cai como uma luva para explicar tudo isso.

Essa avalanche catártica dos complicados paradoxos da existência compõe o mais interessante desse cineasta cujas obras, em questões de enredo podem ser simplificadas com apenas uma frase; um artista pobre e frustrado descarrega sua fúria em desconhecidos (O Assassino da Furadeira), mulher muda é estuprada duas vezes e torna-se uma homicida paranóica (Sedução e Vingança), família de mafiosos querendo vingar o caçula fuzilado (Os Chefões), oficial de polícia viciado em drogas investiga o estupro de uma freira (o filme em questão). Por aí vai. Simples, direto, no ponto, visceral, muito visceral. A crueza de seus filmes é sempre assim – invarivelmente estrangulante, combinada com um estilo de direção praticamente sem precedentes: livre, coeso e fluido, mas tudo isso não passa de um pretexto para pular dentro de um universo de sentimentos nem um pouco bonitos.

É sempre assim, crime, religião, sexo, raiva, afeto, psicopatia, dependência, loucura – universos assustadoramente próximos para Ferrara.

Em Vício Frenético, não tem meio termo. A câmera cola em Harvey Keitel e não desgruda nunca, temos que ver o tal oficial de polícia transviado se picando na veia, aspirando nariz adentro, tragando aquelas porcarias que ninguém ao certo sabe a composição química, fazendo apostas milionárias, acordando em apartamentos estranhos, tendo ataques neuróticos na hora do rush, rindo de ameaças de morte, abusando de adolescentes, rastejando, ganindo e transformando o rosto em uma máscara de agonia em estado bruto. Há cenas de pouca aplicação lógica na fluência da história, mas o louco Ferrara sempre foi assim. É o delírio de um vício que não consegue de jeito nenhum entender como o mundo é árido e seco, como ele é opaco por dentro, como a redenção parece tão longe que rasgamos obras-primas, fugimos de símbolos dito positivos e mandamos Jesus Cristo para aquele lugar. A força magnética do cineasta é sinistra, bizarra, é pessimismo cozendo a fé, a redenção, a santidade em um caldeirão esquizóide em fogo alto. Mais um documento em película viva da teoria de Milan Kundera que entre a escatologia e a graça divina há apenas um fino véu de seda como aquele que se rompe quando o filho de Stálin se jogou em cercas elétricas por se recusar a limpar banheiros nazistas (quer momento mais Ferrara? Pois é, Kundera descreve isso em A Insustentável Leveza do Ser), como aquele que se rompe quando Keitel dobra de joelhos e gane feito um cão sarnento dentro de uma igreja, levando todos para o mesmo buraco, ele e a força superior. Os dois tem cérebros e intestinos, mas por mais que a racionalidade tenha sido tão erigida nesse mundo velho de guerra, cagam e andam um para o outro.

Nem o genial Keitel e seu genial diretor fetiche poupam esforços para fazer com que essa história seja fácil de ser contada. Como em O Assassino da Furadeira, estão elevando o filme no volume máximo, embarcam sem medo na psicose nua e crua. Mergulhe nas cenas longas que afinal de contas não vão influenciar tanto assim no desenrolar da história, porque a história, meu velho, é assim mesma, fragmentada, alucinada, entre o delírio e a rebordosa, entre o buraco e a redenção, tudo é carne, é sangue, é cruel. Em se tratando de doença mental, Ferrara sempre tratou a mesma com a mesma sutileza de um elefante em uma loja de cristais, e com uma intensidade rara de ser vista nessa arte centenária que é o cinema. É tipo Saturno devorando os próprios filhos em um quadro de Goya – é totalmente perturbador, com aquele olhar arregalado e insano, mas é um espelho, do artista e do receptor, de todas as neuroses da vida mundana, medíocre e frustrada. Se Abel é gênio ou é louco, nós vamos morrer sem saber.

5/5

Ficha técnica: Vício Frenético (Bad Lieutenant) – 1992, EUA. Direção: Abel Ferrara. Elenco: Harvey Keitel, Victor Argo, Paul Calderon.

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