– por Cauli Fernandes

A janela do táxi transborda de coisas para olharmos. Em cada bueiro, em cada cor, Tóquio parece esconder uma novidade. Dos japoneses que riem, correm, voam pelas ruas, não observamos só “alguém”, mas uma dimensão paralela, algum tipo de seita transcendental onde as cores tramam revoluções com aqueles orientais, cheios de tradições imutáveis e gestos antepassados mas, que, ao mesmo tempo, são capazes de te surpreender com algo inumano, exato e arrebatador.

Bob Harris parece perceber isso, a julgar pelo esfregar de olhos e a boca escancarada de espanto. Ele se deslumbra com a profusão absoluta de matizes, o cheio de fundo do mar com boca molhada de chuva que o Sol Nascente traz. E, no meio de tanto delírio, surge uma coisa realmente insana: Bob está enorme, pregado numa parede, vendendo um copo de uísque que está na sua mão e fazendo cara de perdição, de amigo de infância reencontrado desiludido. Vida fodona.

Charlotte demonstra estar sendo cutucada por alguma coisa. Tem algo beliscado-a para dizer que os passos dela não são precisos; vontade de dizer “adeus” para tudo e sussurrar “merda” para o ombro. O marido dela não aparenta estar em débito consigo mesmo, como também não percebe que está em débito com a mulher. Ele já se alojou no caleidoscópio da cidade, mas ela continua apoiada na janela, olhando as formigas lá em baixo, matutando porque ela não se encaixa entre os sushis e templos, porque ela se acha fria e distante de toda a gente e ikebana, porque não consegue fazer um verdadeiro sorriso perante o homem com quem se casou.

Então, por efeito de algum ajuste no tempo, de alguma reorganização de todos os quarteirões do mundo, eles se encontram no mesmo hotel. No caminho que trilhavam, o ar estava em falta e o destino era oco, não estava sendo necessário chegar lá. Mas, depois da primeira troca de palavras, o que os aflige os enlaça; cada um saiu de um buraco de estranhezas para Tóquio, para um mundo feito à parte que nem todos conseguem ver. Havia um abraço sincero esperando por eles.

Com um toque nouvellevogueano, o casal passeia por lá, por aqui, vendo tudo como se cada fatia de peixe estivesse cheio de sonho. Os objetos e pessoas se metamorfoseiam em gamas de história com encantamento e importância. Até mesmo a dor que sentiam antes ao ver através do vidro é amenizada ao transformarem em música e compartilharem com quem entende. Mas, afinal, a resposta é a compreensão silenciosa.

Sofia Coppola transforma Tóquio em um daqueles globos de Natal, cheio de água, que a gente mexe pros floquinhos de neve se agitarem. Entretanto, ao contrário de neve, existe papeizinhos coloridos e cor-de-rosa e, no lugar do Papai Noel e sua casa nórdica, temos um aglomerado de prédios cinza com poesias secretas e pequenas pessoas ali pelo meio, enveredando por ruas, se perdendo. Sofia, ao brincar com o globo da vida, junta Bob e Charlotte em um nó de comprometimento e amor que nós procuramos todo o dia. Resta dizer parabéns para ela por fazer um dos casais mais lindos do cinema, e esperar pela hora em que nós teremos nossa particular palma da mão para agarrarmos e atravessar a rua. Porque, além do mais, a gente faz nossa própria Tóquio.

5/5

Ficha técnica: Encontros e Desencontros (Lost In Translation) – 2003, EUA, Japão. Dir.: Sofia Coppola. Elenco: Scarlett Johansson, Bill Murray, Giovanni Ribisi, Catherine Lambert, Anna Faris, Fumihiro Hayashi.

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