– por Guilherme Bakunin

Ah, sempre tem aqueles amigos né, “ei, você vai fazer alguma coisa nesse findi?”, e você, na santa inocência vai lá e diz que não, aí ele continua “ei, então vamo chamar a galera pra ver um filme!”. Ficar alimentando a cinefilia virtualmente tem lá suas vantagens. Você pode elaborar melhor seus pensamentos sobre os filmes que assiste, e além disso fica livre de amigos cinéfilos que, acreditem, pessoalmente são um saco (porque ninguém quer discutir a linguagem cinematográfica do Godard enquanto pode dar umas risadas e contar piadas sobre putas). A desvantagem de limitar a sua cinefilia ao mundo virtual é: você vai ser chamado pra ver filmes retardados.

Aí seu amigo te chama pra ir no cinema, e perceba: você sabe que 2012 tá passando, mas vai mesmo assim. Haha, é como ver um acidente (sic) antes de acontecer. E então você está no shopping, você e mais 5 amigos e o destino conspira contra você: vocês chegam tarde pra sessão de Deixe Ela Entrar (você convenceu o pessoal, dizendo que é um filme sobre vampiros… ponto) e só dá tempo de ver 2012. Sua primeira reação é “de jeito nenhum, prefiro dar um rolé no McDonalds”, mas aí satã começa a agir sobre a sua vida, e trás à sua memória aqueles tópicos nos foruns e nas comunidades do orkut… 2012, né, filme badalado do ano, milhões de posts e tudo mais. Satã diz: “você não vai querer ficar de fora das discussões, vai?”. Aí você fica pensando nisso e fica pensando naquele seu “amigo” virtual que diz pra você que 2012 tem diálogos horríveis, mas as cenas de destruição – e só elas – são boas pra caramba, “eletrizantes”, então ele recomenda, e já que seu “amigo” virtual recomendou, você acaba aceitando ir, afinal, você não quer ficar parecendo um pseudo intelectual, não é mesmo?

Bom, tenho uma notícia pra você camarada: sua mente é templo do seu corpo e você não devia ter feito isso. Sua mente é maravilhosa e é capaz de assimilar Bergmans e agora você a sujou, você assistiu 2012. Você está impuro; vai ter que se lavar no Jordão sete vezes e mesmo assim vai continuar impuro até à tarde. E não me venha com essa de que “as cenas de destruição são “eletrizantes””, sua marionete caipira, cinema não foi criado pra ter “cenas de destruição “eletrizantes””, e você sabe disso! – você vê Hawks, pelo amor de Deus!

Caras, sim, eu me recuso a comentar muito sobre o filme. Antes, porém, vou dar algumas dicas para quem for fisgado pela maldição do cinema de shoppings: NÃO, o mundo não vai acabar em 2012. SIM, você tem que ir no cinema com isso em mente, pra, sei lá, não sair chorando no meio na sessão (ninguém vai acreditar que isso aconteceu, mas ok). Outra coisa: o Roland Emmerich é um diretor medíocre. Não, Independence Day não é um bom filme. Nem Godzilla, nem O Dia Depois de Amanhã, nem – hahahaha – 10.000 a.C, por favor. E por último, lembrem-se de ter em mente que pessoas são idiotas, e que se seu “amigo” virtual chega pra você recomendando 2012 por ter cenas de ação legais, você precisa urgentemente conhecer esse amigo pessoalmente, porque ele pertence ao grupo das pessoas que te chamam pra ver filmes retardados, não ao grupo de pessoas com as quais você discute Agnes Varda.

Mas cuidado, não saia dizendo isso por aí. A mediocridade de Emmerich está um pouco em cada um dos corações humanos, e as pessoas tem medo de admitir que BOM CINEMA não é o bastante. Então, elas vem com um papo MUITO ESTRANHO como “ei, seu pseudo intelectual de merda, o mundo não gira em torno do Kubrick! Bays são divertidos, só pra passar tempo!, nem todo filme tem que ser uma tese filosófica de doutorado”. Sim, um papo realmente muito estranho e que, infelizmente, é amplamente apoiado nesses nossos pré-apocalípticos dias. Caras, muito cuidado! Vai chegar o tempo em que apedrejarão aqueles que se negarem a assistir filmes do McG, e esses dias estão próximos. Sua mente é templo do seu corpo e você tem que cuidar desse templo, meu filho!, alimentá-lo bem, com Rohmers e Fords e, mesmo que você dê uma escapadinha leviana pra ver Se Beber, Não Case, fique longe de obras medíocres, fique longe de obras medíocres, fique bem longe de obras medíocres. E eu não sei se mencionei, mas Emmerich fez várias delas.

0/5

Ficha técnica: 2012 – 2009, EUA. Dir.: Roland Emmerich. Elenco: John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor, Thandie Newton, Oliver Platt, THomas McCarthy, Woody Harrelson, Danny Glover, Liam James, Morgan Lily.

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