– por Bernardo Brum

A era hippie acabou e agora todos estão trabalhando. Mas você sabe, às vezes tem um homem que pode mudar tudo isso.  Sem comunistas, agora no máximo podemos acreditar no discurso deste republicano ou daquele democrata. Mas às vezes existe um homem para provar como nós todos estávamos enganados. Tudo agora é baseado no dinheiro para a caridade, para as artes plásticas ou para fortalecer a máfia da pornografia em videotape, que não sabem mais o que é cinema. Só que as vezes tem um homem que não liga, chega e destrambelha tudo.  E esse homem que eu não conheço não é ninguém importante, mas você sabe que às vezes tem um homem que… Hum, perdi o fio da meada.

Eis Jeffrey Lebowski, O Cara, exímio jogador de boliche que junto de seus incapazes amigos – o cardíaco Donny e o psicótico ex-combatente do Vietnã Walter – é tirado do seu mundo de baseados, white russians e calorosos debates nos clubes onde bolas rolam e pinos caem para fazer as vezes de Sam Spade. Ou de Philip Marlowe. Para aqueles sombrios anos pós-depressão,  o homem era Bogart, gel no cabelo, terno impecável, cigarrinho no canto da boca e frases ferinas. Nesses anos de incrível ressaca moral, nós temos que deixar isso pra lá e buscar compensação por nossos carpetes mijados e nossas fitas do Creedence.

Esse é o dilema moral do Cara. Tomado por um milionário homônimo, tendo seu carpete mijado e tendo que sair por aí atrás de uma ex-atriz pornô casada com o tal Grande Lebowski – que, segundo o próprio foi raptada por uma gangue de… niilistas? E, claro, no meio do caminho tendo que aguentar moleques arrogantes, a filha excêntrica do milionário, o síndico afetado, o pederasta mothafucka’, agiotas do mundo pornô, a polícia, um taxista que é fã do Eagles, os ataques de Walter, e lá vamos nós.

Predileção dos Coen, O Grande Lebowski é um grande filme sobre o nada, a desinformação, a estupidez e a fragilidade da vida. Só O Cara que não parece ligar sobre isso, e em momento algum ele reina soberano – o mundo faz gato e sapato de um pobre vagabundo metido em uma conspiração digna de um O Falcão Maltês ou À Beira do Abismo que, no final das contas, surgiu apenas por causa do caos que faz de nossas vidas grandes campanhas em nome de coisa alguma e que só foram empreendidas, afinal, porque nós somos estúpidos demais para fazer qualquer coisa útil. Ou preguiçosos, talvez.

Aí, uma bola de feno sendo empurrada por aí pelo vento logo transforma-se em sonhos psicodélicos envolvendo garotas gostosas vestidas de viking em uma pista de boliche, ou cinzas de um defunto sendo jogadas em nosso rosto. É tudo muito frágil, ridiculamente frágil. E é tudo muito estúpido, hilariamente estúpido. O planeta é tão rico em oxigênio quanto em burrice, e assim segue o balaio das grandes epopéias dos inúteis, por gerações. Por que, às vezes, tem um Cara para nos mostrar tudo isso. Às vezes, tem um cara para acender uns baseados e ouvir uns rockzinhos safados antes de terem a cabeça afundada na privada. Às vezes, tem… um Cara.

5/5

Ficha técnica: O Grande Lebowski (The Big Lebowski) – 1998, EUA. Dir.: Joel e Ethan Coen. Elenco: Jeff Bridges, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, John Goodman, Steve Buscemi, Tara Reid, John Turturro, Flea

Anúncios