– por Luiz Carlos Freitas

O diretor Michael Cimino integra o grupo dos diretores que conseguiram afundar sua carreira com a mesma rapidez com que subiram. Iniciou sua carreira em 1974, com o thriller policial O Último Golpe, estrelado por Clint Eastwood e Jeff Bridges, mas teve reconhecimento mundial somente quatro anos após, quando arrebatou os Oscar’s de Melhor Filme e Direção (entre outros) por sua obra-prima O Franco-Atirador. Aclamado por crítica e público, teve carta branca para rodar aquele que seria seu projeto mais ambicioso, O Portal do Paraíso, western de quase 4 horas de duração que pretendia ser o novo Era Uma Vez no Oeste. Porém, a produção foi um fracasso retumbante que resultou na falência da United Artists.

À partir daí, toda a credibilidade e respeito adquiridos foram perdidos e o diretor, de brilhante premissa, passou a megalômano fracassado. E foi nesse contexto que, em 1985, ele lançou O Ano do Dragão, thriller policial que acompanha a batalha de Frank White (Mickey Rourke) para desestabilizar as “Tríades” (como eram conhecidas as organizações milenares que dominavam o crime em Chinatown). E uma coisa é fato: a obra, escrita por Cimino em parceria com Oliver Stone (poucos anos antes de seu tão aclamado Platoon), é um dos mais subestimados trabalhos daquela década já tão desmerecida.

Mais que um simples filme policial, Cimino constrói uma trilha de degradação social e humana, esta representada pelo personagem do Rourke. O diretor não negava que seu detetive cínico, misógino, racista, mentiroso, egoísta prepotente e violento era claramente inspirado em seu ídolo Humphrey Bogart (ele mesmo dirigira cinco anos após o remake de Horas de Desespero, de Willian Wyler, com o próprio Rourke vivendo o papel de Bogart na primeira versão).

Logo na primeira cena, testemunhamos o assassinato de um chefe de uma das Tríades cometido por um garoto durante uma celebração costumeira no bairro. Tal fato marcaria uma série de assassinatos e atentados em retaliações entre os poderosos grupos criminosos rivais (como a fantástica sequência do massacre no restaurante). Daí, Rourke entra em cena, já disparando sarcasmo e ironia a todos os lados e, numa batida sem mandando a uma casa de jogos, deixando claro que pouco ligava para os regimentos de seu departamento. O que ele queria mesmo era ‘limpar’ aquele lugar, cumprir seu dever, independente do que tivesse de fazer para tanto.

É incrível o modo como o filme vai ganhando força. White ultrapassa a linha do cumprimento do dever e mergulha de cabeça numa obsessão que o consome por completo. Sua vida vai se decompondo à medida que ele avança nas investigações, atingindo acima de tudo quem está ao seu redor, tendo seu ápice representado na cena em que ele entra em um carro em chamas para retirar o cadáver do assassino de sua esposa. Ao sair, temos Frank como um homem todo coberto de cinzas, roupas e rosto queimados e cercado por fumaça, tal como sua vida (ao menos o que sobrara dela).

Além do brilhante roteiro escrito a duas mãos, temos um Mickey Rourke que dá a “sustância” que seu personagem necessita. Claro, boa parte dos papéis de sua carreira eram basicamente uma variante dele próprio (como o detetive Harry Angel, em Coração Satânico, de Alan Parker). Porém, Frank merece certo destaque ante os demais. O polonês que trocou de nome em busca de uma ‘americanização’ e abre mão de seus preconceitos em nome do senso de justiça pode soar brega, mas a construção do personagem é extremamente eficiente nesse aspecto, sempre deixando claro que, apesar de em prol de uma causa nobre, Frank ainda era prepotente e arrogante ao ponto de não perceber o mal que aquela batalha fazia a todos. Um exemplo disso é um dos confrontos com Joey Tai (o jovem John Lone, excelente no papel do ambicioso mafioso):

“- Pode ser assim que você negocia com os italianinhos. Mas eu não sou um italiano, sou um polaco. E não estou à venda. Eu vou acabar com você. Vou arrastar você pelo chão da rua, na frente de sua mãe e sua irmã. Vou destruí-lo e humilhá-lo.
– Cuidado. Pessoas assim não vivem muito.
– Viverei o suficiente para mijar no seu túmulo.”

Essa é uma das muitas falas “de macho” do personagem do Rourke ao longo do filme. Aliás, diga-se de passagem, há todo um clima de tensão crescente à medida que a trama se desenvolve.

A fotografia é outro espetáculo à parte, em cores fortes e vivas, merece destaque nas cenas noturnas, pelas ruas da cidade. Apesar da edição falha (característica dos filmes do Cimino) que chega a diminuir consideravelmente o ritmo de algumas cenas de ação, não falta ritmo ao filme. Sempre tem algo revelador acontecendo e algumas reviravoltas são realmente inesperadas. Há momentos de tensão absoluta, como na perseguição às atiradoras na boate (que termina com um duelo agonizante em uma avenida movimentada de Chinatown) e confronto final entre Frank e Joey na linha de trem, cena esta que é fácil o segundo maior momento da filmografia do diretor, perdendo apenas para a cena em que Robert De Niro e Christopher Walken se enfrentam na Roleta Russa em O Franco-Atirador. Cena intensa e, novamente, bem reveladora acerca da personalidade do herói e antagonista.

O filme conseguiu fazer uma arrecadação considerável nas bilheterias pelo mundo, recuperando um pouco do respaldo do diretor. Porém, seus três filmes seguintes foram fracassos completos (de crítica e arrecadação), o que acabou por encerrar de vez (pelo menos, até agora) a carreira de Cimino. Uma pena, uma vez que filmes como esse (e o já tão citado Franco-Atirador) mostram todo o potencial deste grande diretor.

4/5

Ficha técnica: O Ano do Dragão (Year Of The Dragon) EUA, 1985 – Dir.: Michael Cimino – Elenco: Mickey Rourke, John Lone, Ariane, Leonard Termo, Ray Barry, Caroline Kava

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