– por Luiz Carlos Freitas

Um filme realmente estranho, mas no melhor sentido que possa se atribuir à essa palavra. Ao mesmo tempo que é de uma poesia e beleza indescritíveis, tem um peso em alguns momentos insuportáveis. A obra é pessimista, uma grande alegoria à sujeira humana por meio de um conto de fadas.

Aqui, o mestre Allen nos transporta à vida de Cecília (Mia Farrow), uma moça simples, com um péssimo emprego, um marido que a maltrata e a explora, vivendo às suas custas. Além disso, o filme se passa em plena Grande Depressão pós-crise de 29, o que torna toda a situação ainda mais angustiante, haja visto que o clima de pessimismo imperava na vida de todos, e não só de Cecília. E, para completar, ela também perde o emprego (é, realmente, nada tem dado muito certo). Entretanto, ela ainda mantinha sua única diversão: ir todas as noites ao cinema assistir ao mesmo filme, “A Rosa Púrpura do Cairo”, estrelado por Gil Sheperd (Jeff Daniels), que vive Tom Baxter, o protagonista que é a perfeita representação do homem dos seus sonhos.

Então, num belo dia após várias visitas ao cinema, Baxter, encantado pelos olhos de Cecilia, resolve (para espanto de todos) sair da tela do cinema e fugir com sua nova amada para viver o que há de melhor no mundo real. É, isso mesmo, você não leu errado. Durante uma das exibições do filme, Baxter simplesmente pára e resolve sair da tela do cinema para o mundo real. À partir daí, a lógica “foge” do roteiro como Baxter do filme. Há um certo alívio cômico (que faz-se presente por todo o longa, mesmo nos momentos mais tensos), damos bastante risada com os inconvenientes da ‘fuga’ de Baxter, como o resto do elenco do filme desesperado sem poder dar continuidade ao roteiro, os demais “Baxter’s” querendo sair das telas em salas de exibição pelo resto do país, entre outras coisas totalmente surreais. Porém, o foco permanece sempre no casal e nas descobertas de Baxter sobre o nosso mundo.

Tudo isto, na verdade, acaba sendo uma grande alegoria para nossa visão e conceitos de um “ideal” de mundo, de vida, sempre envolto pelos paradoxos e contrastes dessa idealização. A fuga de um personagem fictício para o mundo real, este achando que ‘aqui’ é onde se encontra a felicidade, onde tudo é belo e maravilhoso. E sendo guiado justamente por alguém que queria estar ‘do outro lado’, longe dessa realidade pesada, crua. Então, com a chegada de quando Gil Sheperd, interpretando o ator que vive Baxter nas telas (Jeff Daniels em dois papéis), que a “mensagem” do filme começa a ganhar forma.

Cada uma dessas vertentes de ideais é representada por um dos personagens centrais da trama. Baxter é um verdadeiro personagem da fase clássica do cinema, completamente estereotipado – o Daniels demonstra tal personagem com uma atuação bastante “canastra”, inclusive, bem enfática ao arqueótipo do “galã” – e carregado de valores “belos” (não seria incoerente citar que ele poderia ter saído de um filme do Capra, inclusive). A ele, ficou o cargo de representar os idealistas, pessoas carregadas de conceitos de valores inatingíveis, sempre otimistas. Já Sheperd (assim como Cecília) representa o mundo real, mostrando-se tanto mais frio, racional, quanto “sacana” em dados momentos (até seu porte, trejeitos e modo de vestir são diferentes, mais imponentes).

Baxter é o que há de mais encantador no filme. Na cena do restaurante, por exemplo, ele tenta pagar um jantar caríssimo para Cecília com dinheiro falso. Quando vê que não consegue, que seu ‘dinheiro cenográfico’ só vale em cena, ele simplesmente se levanta e fogem. Em tese, ele deveria ficar ciente disso, mas novamente, algumas cenas após, lá está ele dando o mesmo dinheiro a um mendigo, e com pleno olhar de satisfação por estar ajudando a um necessitado, como se não lembrasse que aquele dinheiro de nada adiantaria. E é essa persistência dele em querer manter-se ‘puro’ (mesmo que sem saber disso) que vai contrastar tanto com Sheperd.

Os diálogos entre ele (Sheperd) e Cecília revelam que ele nada mais é que uma pessoa normal, um ator com certas ambições profissionais, que tem medo e receios, que conhece a vida e sabe o quão as coisas podem ser difíceis de verdade, ou seja, o total oposto de seu personagem. E isso, de certo modo, encanta Cecília. Ele não tem a magia do outro, mas era alguém real, que parecia com ela. Daí fica a dúvida. Porém, ela não tem muito tempo para pensar nisso. Há o reencontro com Baxter e, num dos momentos mais mágicos e belos do filme, ele a leva para dentro do filme, onde a presenteia com vestidos caríssimos, levando-a para jantar em um restaurante finíssimo, cercada de grandes celebridades, todos ricos e pomposos. Pela primeira vez na vida, Cecília teve uma experiência digna de seus maiores ídolos do cinema.

Todavia, essa noite de encanto era apenas o prólogo ao momento mais difícil de sua vida. À volta, Cecilia se encontra frente à uma escolha entre seus dois novos amores, entre a mágica e fantasia com os quais tanto sonhara e a segurança de uma realidade difícil, mas ainda assim real. A escolha seria fácil, em tese, afinal qual de nós pensaria duas vezes antes de cair de cabeça num mundo perfeito onde tudo é puro glamour? Mas ali estavam os pequenos detalhes entre os dois que aos poucos nos foram jogados na trama. Na luta com Monk (Dany Aiello), marido de Cecilia, Tom não se machucou, pois por ser fictício, ele não sangrava, sentia dor (ele sequer “despenteava”). Ele era virgem, nunca havia “feito amor”, pois nesses momentos, “a tela escurecia e a cena cortava”, o fade os consumia. Ele era impossibilitado de sentir qualquer prazer além dos que estavam no roteiro. Eram limitações com as quais Cecilia haveria de lidar. Do outro lado, Sheperd, como dito antes, real, e por isso tão capaz quanto.

Cecilia pensa e escolhe ir com ‘o real’ e, numa das cenas mais tocantes e “pesadas” do filme (e que sempre me leva às lágrimas), ela profere a fala que resume o que Woody Allen quis dizer aqui:

– No seu mundo as coisas sempre acabam bem. Sou uma pessoa de verdade.. Não importa o quanto eu me sinta tentada, devo escolher o mundo real.

A sua vida difícil num mundo imerso em dor e pessimismo (vide o contexto da época onde a trama se desenvolve) a havia ensinado que não tinha como melhorar. Ela se sentia condicionada àquele sofrimento e duvidava de tudo que não fosse a dor. A esperança era duvidosa.

Tom volta ao seu ‘mundo’ e Cecilia se prepara para fugir com Sheperd para Hollywood, onde poderia ter o melhor de dois mundos, da fantasia do cinema e da segurança da realidade. Aqui, a crueldade desse “conto de fadas” se manifesta em seu ponto máximo: Sheperd não está esperando por ela. Após terminada sua missão de fazer com que seu personagem retornasse ao filme, partiu no primeiro avião de volta ao ‘seu mundo’. Cecilia abandonara sua casa em busca de um novo romance que não a esperou. Sem o marido (que mesmo um traste, ainda era o dono da casa – e, após tantas humilhações, não a queria mais por lá), estava sozinha e completamente perdida. A única coisa que lhe restava era dinheiro suficiente para uma última entrada no cinema.

O filme não era o mesmo, um novo havia substituído o ‘problemático’, dessa vez um musical com Fred Astaire. Cecilia senta e começa a olhar pasma para o casal de protagonistas dançando. À medida que a cena se desenrola, vemos Sheperd no avião, com um olhar perdido e uma expressão de tristeza. O foco volta ao olhar admirado de Cecilia e os créditos sobem. Realmente, é um final carregado de pessimismo e que soaria um tanto quanto incoerente perante a mágica e beleza de toda a história. Mas não seria esse o castigo de Cecilia por não se arriscar? Somos levados a crer que, por mais que busquemos um refúgio em uma fantasia, sempre estamos presos a essa realidade assombrosa. Devemos buscar um equilíbrio que Cecilia não tinha. As sucessivas idas ao cinema para ver o mesmo filme demostravam seu desespero em se agarrar a alguma coisa boa, pois esta sabia que ao término da exibição, ela voltaria a ser uma fraca submissa e que, justamente por isso, havia perdido a grande oportunidade de sua vida.

Tudo bem, o mundo pode parecer terrível (e às vezes eu concordo que pareça – e seja), mas será que isso não é culpa nossa? Temos, sim, todo o direito de sonhar, assim como Cecilia sonhou. Contudo, entre tantos “direitos”, devemos levar mesmo até os extremos o de sermos covardes como ela foi? Ou será que aquela covardia é algo ao qual estamos condicionados, algo do qual não se pode fugir e que nem deve ser chamado de covardia propriamente dita, apenas uma reação natural ao nosso mundo? Isso (e me perdoem a expressão clichê que virá a seguir) é algo que somente cada um de nós pode dizer, afinal temos essa liberdade. O próprio Allen deixou isso claro, fez esse ‘balanço’ no roteiro, equilibrando a fala citada há pouco, extremamente pessimista, com um desfecho belíssimo e com um toque de esperança (e que também sempre me leva às lágrimas à cada vez que revejo – e há vezes que coloco o DVD somente para ver esse trechinho):

-Adorei cada minuto ao seu lado e nunca vou esquecer daquela noite que passamos juntos na cidade.
– Adeus!”

Num lance de gênio, Allen deixa em nossas mãos definir qual a escolha de seus personagens. Ou alguém pode dizer com certeza se a expressão de tristeza no olhar de Sheperd no avião era de dor por ter perdido um grande amor que acabara de surgir ou por simples remorso por ter usado da pureza de Cecilia? E o olhar admirado dela nos momentos finais, assistindo ao filme do Astaire, seria uma expressão de tristeza, de desgosto pela oportunidade perdida ou mais um encantamento, uma outra fuga que ali surgira com o novo ‘astro’ em cartaz? A única certeza que fica é a de que os sonhos por si só não se sustentam, esta passada pelo destino de Baxter (personagem que representa o idealismo e a pureza cega e inocente dos sonhadores), em outra cena sublime: abandonado por sua amada, volta ao filme, o restante do elenco finalmente pode ir à “festa no Copacabana” e ele, sozinho, suspira e, de cabeça baixa, sai de cena (e mais uma vez me pego chorando).

De resto, se Cecília e Sheperd foram felizes em suas escolhas, assim como o equilíbrio entre nossos sonhos e nossas possibilidades, cabe a nós decidir.

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5/5

Ficha técnica: A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo) 1985, EUA – Dir.: Woody Allen – Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello

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