i'm not there reduzido

– por Bernardo Brum

Depois de mais de quarenta anos de carreira, Bob Dylan alçou seu nome, álbuns e canções ao posto de um dos artistas mais importantes e influentes do século vinte. Na música, foi responsável por levar a onda inglesa de música pop adiante e torna-la mais séria, adulta e compromissada, a fim de levar o rock and roll ao posto de mais artística e consciente, influenciando algumas das principais bandas e artistas contemporâneos e posteriores. Liricamente, trouxe as preocupações, linguagem e estilo de gente como T.S. Eliott, Walt Withman, Dylan Thomas e a literatura beat para cantá-las sobre um estilo único, mistura de folk, blues, country e rock and roll.

Muitas vezes criticado abertamente pela crítica, o público e até mesmo por companheiros de profissão por deixar de fazer o que já era consagrado para arriscar-se em novos universos, Dylan não olhou para trás e fez sua fama como cantor engajado, como poeta marginalizado pelos seus, como excêntrico e até mesmo como pregador religioso. Recusou todos os rótulos impostos a ele e construiu uma carreira complexa e ambígua como o artista sensível e pessoa difícil que sempre aparentou ser aos olhos do público – seja por suas músicas e letras, seja por sua vida pessoal atribulada. O homem por trás do mito sempre provou ser alguém tão cheio de ambivalências e longe do alcance de maniqueísmos, assim como a sua música.

Todd Haynes, realizador de um dos mais cultuados filmes alternativos da década de noventa, Velvet Goldmine, no qual abordava a história do movimento glam rock, realizou com rara maestria este filme sobre o homem que é uma das figuras mais conhecidas e ao mesmo tempo mais misteriosas da música popular mundial. Desde o início, parece ter uma proposta muito difícil: a de retratar um homem que tanto mudou com o passar dos anos. E para tal, Haynes teve uma sacada exótica que se revelou extremamente funcional: a de dividir a história em seis segmentos, e em cada um deles, um ator diferente interpreta Bob Dylan.

Marcus Carl Franklin é “Woody Guthrie”, o Bob Dylan impostor e viajante, que cruzava o país de vagão em vagão antes da fama tocando violão para trabalhadores interioranos dos Estados Unidos, escondendo sua identidade verdadeira e atravessando o país em busca de conhecer seu ídolo, o verdadeiro Guthrie (um dos compositores de música folk mais influentes do século vinte). Ben Wishaw é Arthur Rimbaud, o Dylan poeta e anônimo que serve de ponte entre todas as facetas, que é anti-social, não quer ser reconhecido de jeito algum e passa todo o seu segmento dando uma entrevista sobre sua vida, demonstrando suas inquietações e parecendo ser uma espécie de “cérebro” para todas as outras encarnações Dylanescas.

Christian Bale é Jack Rollins, antigo cantor de folk que após anos de excesso converteu-se ao protestantismo. Richard Gere é Billy The Kid, o Dylan fora-da-lei (uma referência direto a uma das incursões de Bob no cinema – Pat Garrett & Billy The Kid, de Sam Peckinpah) que foge de todos. Heath Ledger é Robbie, ator despontando em início de carreira após interpretar em um filme o personagem de Christian Bale, que vive um tempestuoso relacionamento com sua namorada . E por último, mas não menos importante, a mais falada de todas as interpretações: Cate Blanchett, como Jude Quinn, o cantor que trocou a música folk politicamente engajada pelo blues-rock poeticamente desajustado. Um fantasma em vida, que vive de lançar sua sombra sobre o mundo da cultura de massa e assombrando os mais próximos pela seu desajuste social, sua dependência em drogas, sua alucinada vida de músico de estrada sem vida própria e sentindo que todos à volta estão o espremendo até não sobrar suco nenhum.

O mais surpreendente é que Não Estou Lá, é perfeitamente inteligível, e o melhor de tudo, sem nunca deixar de ser complexo – o tipo de filme para ser sentido – por mais caos que exista, o diálogo com o espectador sempre existe. Com a premissa de aproximar o mundo do universo de Bob Dylan, Todd Haynes nunca peca por falta de ousadia; o filme mergulha corajoso no objetivo de desvendar a lenda que se construiu em torno de uma só pessoa.

Pouco a pouco vamos entrando em sintonia com a história de um homem que, de início um completo desconhecido, foi catapultado em largos saltos para uma fama opressiva que progressivamente foi minando-o de relacionamentos, de contato físico, de uma vida saudável, de qualquer oportunidade de lazer, sendo sufocado cada vez mais por crítica e público que exigiam que cada assobiada que desse fosse genial e ao mesmo tempo não queria que ele evoluísse como artista, até que um dia não agüentou mais, refugiou-se de tudo e de todos e renasceu como alguém mais espiritual e que vê o tempo passar e as pessoas agirem de outra forma, em um período que pode ser reconhecido como o início dos anos sessenta até o fim dos setenta, construindo a cruzada solitária e excêntrica de um homem em busca de transcendência não econômica ou popular, mas, acima de tudo, pessoal. Uma estrada dura e realista de decadência e glória muitas vezes misturadas uma com a outra que deu ao mundo da música não o que ele queria, mas o que ele precisava ouvir.

A habilidade técnica de Haynes se sobressai especialmente no segmento interpretado por Cate Blanchett, em que pipocam referências em matéria de enquadramento, fotografia, história e concepção ao clássico Oito e Meio de Fellini, onde um diretor sufocado pela fama não consegue encontrar vazão suficiente às suas angústias interiores, mas quer de qualquer jeito fazer um filme que consiga fazer com que as pessoas revejam seus conceitos de vida através de sua arte – o mesmo dilema vivido pelo músico à época. Cate, soberba, oferece uma das melhores interpretações dos últimos tempos como um Dylan atordoado irônico, perdido e consumido por show business, álcool, anfetaminas e poesia.  Christian Bale também segura muitas bem as pontas, com o seu segmento narrado em forma de documentário que trata sobre as mudanças de vida do artista que interpreta. A aparência já desgastada e velha, a voz amargurada e já meio rouca, e o jeito de andar já meio desajeitado e de sobrevivente de dias frenéticos convencem muito bem.

Não só nesse segmento, o talento do realizador empolga por coordenar seu filme tão bem, e pode-se dizer que ele nunca foi tão feliz quanto aí, em que seu cinema pulsa como a vida do músico que o retrata – a fúria suicida de Ballad of a Thin Man, a solidão de One More Cup of Coffee, o idealismo político dos áureos tempos, a inocência dos primeiros dias, as experiências de quase morte que sempre fizeram de Dylan uma espécie de Jó roqueiro… O final é a própria anti-catarse cinematográfica. Sem clímax, seco e direto, sem orgasmo. Apenas a sinceridade e contemplação que parecem as mais apropriadas do mundo à uma obra que nem essa.

Enfim, literalmente um dos melhores filmes dos últimos anos,  fugindo da direção convencional e um tanto covarde de outras cinebiografias como Johnny e June e Ray e convergindo tudo em um necessário cinema autoral. Assim como Dylan, Todd Haynes sabe que a rollin’ stone gathers no moss, ou em bom português, uma pedra que rola não cria limo, e criou esta pérola que, por sua ousadia, dificilmente irá tornar-se datada ou rapidamente esquecida. Não Estou Lá cutuca, questiona e nos joga no inferno pessoal de um indivíduo o tempo inteiro, sem concessões.

Crítica escrita ao som da obra-prima de Bob, o disco Highway 61 Revisited. Essencial para qualquer um que queira se inteirar, filme e música, Todd Haynes e Bob Dylan.

Eu aceito o caos. Só não sei se ele me aceita”.

5/5

Ficha técnica: Não Estou Lá (I’m Not There) – 2007, EUA. Dir.: Todd Haynes. Elenco: Ben Wishaw, Christian Bale, Cate Blanchett, Richard Gere, Charlotte Gainsbourg, Heath Ledger, Marcus Carl Franklin, Kris Kristofferson, Julianne Moore.

Anúncios