last house on the left

– por Bernardo Brum

Quando se distanciou do mundo do cinema e passou a dirigir séries de televisão e peças de teatro,  a desculpa dada por Bergman era que estava horrorizado com a baixeza atual do cinema. Sempre me pergunto se um dos motivos principais foi ter visto o que um certo cineasta americano fez usando a história que o sueco havia criado para o filme A Fonte da Donzela

Pois é, Aniversário Macabro transforma uma clássica história de sofrimento, dor e tristeza em um autêntico exploitation sujo, brutal e doentio. Na cadeira de direção, Wes Caven, um dos mais malucos cineastas do gênero e que, com o passar dos anos, iria progressivamente amolecer e passar a dirigir filmes mais levinhos como a trilogia de terror teen Pânico e o draminha água-com-açúcar Música do Coração, e é claro, criaria o vilão Freddy Krueger e dirigiria o primeiro filme da série do psicopata dos sonhos, A Hora do Pesadelo.

Mas lá pelos idos do começo dos anos 70, o papo era bem diferente. Junto ao produtor Sean S. Cunningham (que, anos mais tarde, criaria a mais rentável cópia de Halloween – A Noite do Terror, Sexta-Feira 13) e egresso da pornografia (como tantos outros cineastas do seu período que passariam a ser mais cohecidos como grandes potências do cinema americano – como Abel Ferrara, só para citar um exemplo), Craven acabou sendo reconhecido como um dos cineastas mais extremos da época. Outros filmes que iria dirigir, como Quadrilha de Sádicos e declarações que ele próprio não aguentava assistir seu debut no cinema de horror só serviram perpetuar a lenda.

A história de Bergman é subvertida logo nos primeiros cinco minutos, aonde a inocente protagonista de seu filme é transformada numa libidinosa moça típica do estereótipo daquele década. Ao invés de ir levar velas para a igreja, ela sai com uma amiga no seu aniversário para ir num show de rock e comprar maconha. Ao invés de encontrar pastores pagãos, ela é estuprada e assassinada por uma gangue clichê de psicopatas lideradas pelo amedrontador Krug Stillo (interpretado pelo ator David Hess, dono de uma expressão de psicótico-demente poucas vezes igualada).

Essas são as premissas básicas para um filme nem um pouco sutil e praticamente sem concessões. Não adianta desviar os olhos da violência para outra coisa, já que aqui, a violência é a mola-mestra da película. Ela que dita a estética suja e doente, a edição meio Peckinpah e a história, que se não é muito original, deixa pra lá a história de vingança, culpa e redenção do filme original e pega os pais da protagonista para revidarem de forma igualmente animalesca.

Aniversário Macabro é um exploitation por excelência, e as próprias aliviadas que o cineasta dá só acabam atrapalhando tudo – tipo a inserção de uma dupla de policiais palermas que passam grande parte do filme em trapalhadas à lá Os Três Patetas enquanto o pau come solto e rolam estupros, desmembramentos , assassinatos  e humilhações mil. Assim como a apresentação dos antagonistas – caricata demais para se levar a sério e óbvia sacanagem do diretor para com o espectador – que acabam deixando o filme, no final das contas,  sem todo o impacto que poderia causar.

Mas mesmo com o pézinho na auto-esculhambação desnecessária, não se deixe enganar – o filme é pauleira pura que compete de igual para igual com qualquer um dos clássicos hiperviolentos da época. O ato final é um dos mais malucos e alucinados que o filão poderia oferecer – inclusive inaugurando o uso de uma motoserra no cinema de horror  antes de Leatheface e Tobe Hooper a popularizarem de forma definitiva.

Histórico-socialmente falando, o filme é um reflexo da sua época – uma época desiludida, onde os Estados Unidos voltavam desiludidos da guerra do Vietnã, o tráfico de heroína subia de forma vertiginosa, ocorriam o escândalo de Watergate, a era hippie chegava ao final com Altamont e os brutais assassinatos da Família Manson e o mundo se via numa época que, a qualquer minuto, poderia acabar nas cinzas de uma fogueira nuclear. Com isso, nem dava para fazer algo mais elaborado – a urgência e o sensacionalismo eram o que ditava os filmes. Com isso tudo, o grito de Craven foi mais do que válido. Tanto que, até hoje, continua sendo impressionante.

3/5

Ficha técnica: Aniversário Macabro (Last House on The Left) – 1972, EUA. Dir.: Wes Craven. Elenco: Sandra Peabody, Lucy Grantham, David Hess.

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