le locataire

– por Bernardo Brum

Por esse filme, que fique claro: ninguém filmou ou filma, atualmente, o inferno astral da forma que Roman Polanski faz. Saído do sucesso de Chinatown, o atormentado Polanski, com o recente brutal assassinato da sua esposa, Sharon Tate, praticamente prenunciou o novo escandâlo que iria abater sobre a sua carreira em 1977 envolvendo substâncias ilícitas e pedofilia com o esquizofrênico O Inquilino. Adentramos aqui, as dimensões retorcidas, claustrofóbicas e invariavelmente depressivas da mente genial do diretor franco-polaco.

Mas claro que, além de errôneo, é um tanto castrador reduzir a obra a uma previsão de desgraça vindoura – apesar que não deixa de ser tentador ver como perdura em sua obra um sentimento de fatalismo poucas vezes igualado no cinema. A história de Trelkovsky, um corretor de seguros polonês que consegue um emprego novo na França e aluga um apartamento de uma moça – Simone Choule – que havia se jogado da janela de seu prédio, que lentamente entra em um ciclo de esquizofrenia e neurose não é nada mais que uma desculpa de Polanski para jogar o espectador em um universo sinistro, incoerente e incompreensível, de dar orgulho a cineastas italianos como Mario Bava, um mestre na arte de usar o desconhecido para elevar tudo ao mais puro e  perturbador surto desassociativo.

Mais do que  sua preferência temática pelo apartamento, pelas grandes cidades e a forma que afetam seus indivíduos – seja no tocante ao desejo reprimido, em Repulsa ao Sexo, quanto à velha fascinação pelo obscuro em O Bebê de Rosemary, o diretor fez de O Inquilino algo que conjuga tudo isso ao mesmo tempo – o sexo, o demônio, Sigmund Freud e Aleister Crowley infectam cada milímetro de película de forma irremediável e violadora. Pouco a pouco, Trelkovsky se vê obrigado a fumar os mesmos cigarros que Simone Choule, andar com as mesmas companhias, tomar o mesmo café da manhã, enfrentar as mesmas adversidades, aguentar os mesmos vizinhos suspeitos… Estaria ele lentamente tornando-se outra personalidade?

Esse é outro ponto importantíssimo da obra – talvez o principal: a desconstrução da personalidade, a certeza terrível que não sejamos tão únicos como pensamos, e que sim, grandes traumas são capazes de deixar personalidades em migalhas, devolvendo o “ser” humano ao aspecto de carne e nada mais, e explorando uma questão importante para muitos artistas: já que não somos únicos, deve haver o duo, nosso oposto assustadoramente próximo, sempre perto de nós, oculto nas sombras da mente.

A partir de certo momento, o trabalho que vai além de psicologização pesada – está mais para desassociação pesada – acaba por invadir o espectador: onde termina Trelkovsky e começa Simone Choule? Onde termina Polanski e começa Trelkovsky? Até que ponto nós somos nós e Polanski é Polanski? Outro terrível recado do pessimista diretor – após anos e anos de papo de “paz e amor”, “comunhão espiritual”, descobrimos uma terrível verdade: estamos mais próximos do que gostaríamos.

E é naquela hora, na mais escura das noites, sozinhos em um quarto, que uma simples olhadela lá fora nos transfigura – no bizarro, no desejo repulsivo, na carne que não faz distinção. No inquilino, não de Monsieur Zy, mas o inquilino, o hospedeiro da encarnação de Simone Choule – a desgraça como um parasita irresistível. E se, talvez, só nos reste o mesmo destino?

5/5

Ficha técnica: O Inquilino (Le Locataire/The Tenant) – EUA/França, 1976. Dir. Roman Polanski Elenco: Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Shelley Winters

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