pierrot le fou

– por Bernardo Brum

É esse o filme onde Samuel Fuller diz que o cinema é um campo de batalha. E se isso é verdade, Godard age todo o tempo feito o mais psicótico da frente de batalha francesa que pretendia varrer os artesãos da terra e fincar a bandeira dos autores em terra firme. Temos o drama intimista de Truffaut, a suavidade de Rohmer, a moral e o assassinato com Chabrol… e a política com o mais alucinado deles. Se há tempos Aristóteles já disse que nossa natureza animal é mesmo essa, cada obra produzida deveria ser retrato, construção e olhar das revoluções, anseios e contradições de sua época (ou não, como diria o Imperativo Caêniano).

Se a batalha, de fato, acontecia, e se de fato, cada disparo dado era então uma escolha, O Demônio das Onze Horas é um ponto de virada na carreira do diretor – a insatisfação com a vida burguesa que levam Ferdinand e Marianne Renoir são imediata associação com outro insatisfeito – o próprio Godard, que fez porque fez para desconstruir o cinema burguês que pegou o cinema de Eisenstein para construir suas grandes histórias morais daquele século, indo na contramão alguns anos depois do movimento de ruptura que ajudou a criar para novamente ser um vanguardista – desta vez político – no grupo Dziga Vertov. Mas mesmo nesse, já se percebiam claros sinais.

Aqui, através de uma série de inúmeras pirações, Godard dissolve todo o cinema erigido até então em uma narrativa muito particular, construído à base de sarcasmo, polêmica, provocação e confronto na própria forma do filme. Tudo o que Godard tinha experimentado até então – intertítulos, filmes em atos, quebras de de eixo e diegese, edição picotada, números musicais, descontinuidade narrativa, contexto marginal/nômade, está tudo aqui, mas de forma muito, muito mais radical. Se Acossado provocava o cinema careta de sua época, O Demônio das Onze Horas centra seus esforços em inflamar a discussão, não deixar pedra sobre pedra, e nada escapa do alvo – o cinema e o modo de se assistir cinema, a política e o modo de se pensar política e de como isso domina a sociedade contemporânea de forma irritantemente intrínseca.

Não que o diretor passe a mão na cabeça do espectador. Desde o início, a crítica segue progressivamente impiedosa. Quanto mais o cinema é desconstruído, mais o sentido das palavras “sociedade ocidental” escoa ralo abaixo – até terminar na famosa saída “tudo pelos ares” – após os ciúmes burgueses se apossarem do casal, resultando em fuga, assassinato e suicídio, tudo termina em uma explosão seca, em forma de cogumelo. Depois de duas horas de esculacho conscientizado, realmente não imaginaria final melhor.

5/5

Ficha técnica: O Demônio das Onze Horas (Pierrot Le Fou) – 1965, França/Itália. Dir.: Jean-Luc Godard. Elenco: Anna Karina, Jean-Paul Belmondo, Samuel Fuller

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