in a lonely place

– por Bernardo Brum

Pode parecer um tanto difícil de fazer isso, mas esqueça Juventude Transviada e Johnny Guitar. Quando se trata de Nicholas Ray, muito provavelmente o ponto mais alto que o seu cinema alcançou foi com a obra-prima No Silêncio da Noite.  Desprezado pela crítica de seu próprio país e idolatrado por realizadores como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Wim Wenders e Jim Jarmusch, Ray não influenciou tanta gente à toa:  seus filmes, retratos da própria vida regada à jogatina, bebida, mulheres, cigarros, relacionamentos complicados, brigas com grandes estúdios, convergiam para seu olhar único de mundo – triste, trágico, expressivo até as raias do suportável, capaz de torcer o espectador ao seu estilo estético-narrativo que sempre se preocupou em manter a misé-en-scene, a fotografia e a decupagem atuando juntas com os personagens, quase vivas, alterando a percepção do espectador ao bel-prazer do autor.

Para dar a prova definitiva disso, Ray nos apresenta o rebelde e agressivo roteirista Dixon Steele, que no meio de um bloqueio criativo, é suspeito de ter assassinado uma garota que foi à sua casa e que foi encontrada morta na manhã seguinte. A única testemunha que poderá inocentá-lo é Laurel Gray, sua vizinha da frente, a única pessoa que viu a garota sair desacompanhada da casa dele. Os dois, nessa corrida por provar a inocência do acusado, acabam se envolvendo romanticamente. Porém, pouco a pouco, o temperamento violento e explosivo somado com o comportamento enigmático de Dixon acabam despertando dúvidas se ele cometeu o crime ou não, o que, invariavelmente, vai acabando com o relacionamento de forma irreversível.

Ray distorceu tempo e espaço para nos atingir com um cruzado de direita direto o queixo. A todo momento, ele se serve da estilização dos filmes noir para tecer a narrativa character-driven que reina sobre toda a obra, do início ao fim. A todo momento somos obrigados a contemplar a face angustiada do casal – tanto do medo e raiva do personagem de Bogart, quanto do pesar da dúvida expressado com precisão no rosto de Gloria Grahame.

E não existem limites na fábula de desajuste de Nick. Dixon Steele é o próprio cineasta encarnado, bêbado, raivoso, revoltado com o sistema – não custa lembrar que o próprio Ray foi subjugado durante a perseguição McCarthista aos comunistas a fazer filmes bem menos ousados do que costumava fazer, os famosos filmes de encomenda, para não ser perseguido, torturado e exilado de seu país por causa de suas tendências esquerdistas. E também por seu relacionamento complicado com Gloria Grahame, à época, já divorciados, já que esta não aguentava mais o comportamento abusivo do diretor, em todos os sentidos.

Tudo isso pode parecer curiosidade de revista de fofoca, mas acredito que só serve para fundamentar mais ainda de onde Nick tirou inspiração pra tecer algo tão visceral – e poucos cineastas americanos sabiam mexer com o lado emocional da, digamos assim, coisa, para tocar no espectador de forma irreversível. No Silêncio da Noite nos persegue a todo momento depois de acabar, dada a forma que o autor tratou a história – o amor  pode ser algo lindo, que não precisa de demonstrações óbvias de roteiro de cinema (como comenta um sarcástico Steele a certo ponto da obra), mas ele não resiste ao peso esmagador da dúvida, da indiferença e do abuso. Como dói saber que ninguém é capaz de amar incondicionalmente, e que o tempo corrói tudo. Final mais definitivo pra provar isso, não há, no que pouco importa o crime ser solucionado – já é tarde demais para todo mundo já contaminado pela presença e ausência de coisas tão simples mas tão essenciais no final das contas, como dúvida e confiança.

Se, como o próprio Ray já disse uma vez, o cinema é a melodia do olhar, No Silêncio da Noite é como um disco de Chet Baker: um verdadeiro momento quando beleza e amargura resolveram fazer algo juntas. Tendo-as como musa em plena sintonia, foi quase impossível de errar. Nascia então sua obra-prima, há quase seis décadas nos arrancando lágrimas.

Obrigado por mais essa, Nick.

5/5

Ficha técnica: No Silêncio da Noite (In A Lonely Place) – 1950, EUA. Dir.: Nicholas Ray. Elenco: Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Carl Benton Reid, Art Smith, Jeff Donnell

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