– por Cauli Fernandes

No início, fez-se a sombra. Atravessando dezenas de tons de cinza, vemos uma mulher desconhecida chorando, ouvindo uma música que vem de um vinil que toca. Somente para nós, surge o título do filme, mas quase não é possível distingui-lo. A mulher continua lá, sentada, sofrendo e olhando para uma TV com estática. Ela parece um pouco absorta naquilo, como também indiferente, vendo aquelas pontos de luz.

E isso é só o começo, o batente da entrada. Corte após corte, passeamos por aposentos diferentes de algum lugar, de alguma cabeça, por algo dentro de algum ser vivo ou não, sem qualquer linearidade. É tudo luz, sons, cores, ruídos, sonho, uma experiência sensorial jamais vista, dando conta de contar… O quê? Não sei. As histórias não se encaixam, os delírios são delirantes demais, tentar amarrar os personagens em algo coeso é insanidade. Tem mafiosos, uma burguesa às voltas com as questões da vida, alguém que sofreu violência durante a vida de casada.

E coelhos. Homens com cabeças de coelhos. Coelhos com corpo de homens. Eles fazem um programa de TV, talvez um sitcom, sem conteúdo nenhum, mas que há alguém que ri, há. Eles transam, transam, transam para perpetuar a geração de besteiras. Em um momento, ouve-se alguém batendo na porta e um dos coelhos a abre. Vê o que era. Sai. Silêncio.

Laura Dern. Laura Dern. Laura Dern. Ela é uma atriz que mora numa casa dourada e bonita e faz um filme amaldiçoado. Ela recebe uma visita de uma senhora que diz que um menino abriu uma porta, diz que o filme tem um assassinato foda pra caralho, diz que se hoje fosse amanhã. E aponta o dedo para uma poltrona e não se sabe o que acontece, três mulheres, incluindo Laura, aparecem lá. De um segundo para outro. Esse é o espírito.

Onde estarão as prostitutas? Mostrando os peitos para Laura, fazendo a maior cena musical da história, transando com quem? Elas transam? São prostitutas? Elas devem vagar pelo mundo, feito fantasmas. Será que já morreram? Faça perguntas sempre, sempre, se não, não se sobrevive nesse mundo de gente louca.  Laura Dern foi conversar com alguém, em algum lugar bem alto, falar sobre espancamentos, ameaças, morte.

Pomona fica onde? Muito perto ou muito longe? É algum lugar capaz de se alcançar? Para Laura Dern, apunhalada, deve ser difícil. Mas mesmo assim, estão filmando-a. Gravando a morte para fazer arte. Ou dinheiro? Dizem “corta” e ela anda, quase flutua para chegar em algum lugar, atravessa sets de filmagem, atravessa olhares. Chega onde? Em algum fundo saturado de contrastes, em alguma sala atolada de memórias, desvarios, demônios. Laura Dern diz que ama alguém. Mais luz e escuridão.

Todos os impérios estão mortos. Os sonhos estão sempre vivos, guerreando, acima de tudo e todos. Mas o Império dos Sonhos ainda está vivo do que nunca. Soberbo, pulsando. Na tela de cinema? Sim, talvez. Os filmes conversam entre si? Qual seria o fruto de um debate entre Casablanca e O Iluminado? Janela Indiscreta e Scanners são amigos? A gente gosta dos filmes, mas será que eles gostam da gente? Esse século de cinema quer toda a humanidade morta, de miolo espalhado na parede? Perguntem para eles.

C’mon, baby.

Do the locomotion.

5/5

Ficha Técnica: Império dos Sonhos (INLAND EMPIRE) – 2006, EUA. Dir.: David Lynch. Elenco: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux

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