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– por Luiz Carlos Freitas

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Premiações de ‘Melhor Filme’ tanto podem ser o empurrão à fama como ao abismo para uma obra. Exemplos não faltam, indo da mega-produção Titanic, de James Cameron (verdadeiro sucesso à época, mais pela penca de Oscar’s arrebatados que por sua qualidade em si) ao mais recente O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan (as especulações acerca do Oscar póstumo de Heat Ledger contribuíram para que o longa encabeçasse numa velocidade sem precedentes a lista das maiores bilheterias da história). Todavia, o efeito inverso tem tanta ou mais força ainda.

Lançado em 2007, Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Ethan e Joel Coen, sofreu bastante com a fama adquirida à época de seu lançamento, levando multidões a saírem decepcionadas dos cinemas após verem que não se tratava de um “novo suspense de um assassino cruel em uma caçada humana cheia de sequências eletrizantes de ação”. Entretanto, essa definição não se mostra nem um pouco incoerente. O grande problema à luz da maior parte do público é o modo como isso é apresentado. Temos aqui talvez o maior representante da já característica quebra das convenções cinematográficas sempre presente no cinema dos Coen, tão perigosa ante esse público acostumado às formulas de fácil assimilação quanto corajosa.

A trama [aparentemente] é sobre Llewelyn Moss (Josh Brolin), um ex-combatente do Vietnã que, numa tarde de caça no deserto, depara-se com um cenário de morte, aparentemente uma chacina promovida por traficantes mexicanos. Em meio aos corpos, encontra uma bolsa com alguns milhões de dólares e, sem pensar muito, foge do local com ela, passando a ser perseguido por Anton Chigurh (Javier Bardem), assassino extremamente frio e cruel contratado pelos traficantes para recuperar o dinheiro. Em seu encalço está o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones – personagem que também narra os acontecimentos do filme) e Carson Wells, um segundo assassino contratado para encontrar Llewlyn e Anton e garantir o retorno do dinheiro (uma vez que Chigurh poderia não ser tão confiável).

O “aparentemente” acima, além de uma observação mais que pertinente quando se trata de uma obra dos Coen (as tramas de seus filmes geralmente são pouco mais que um pretexto para desenvolver e [des]construir seus personagens), já serve também para refutar o principal argumento de 97,12% dos detratores da obra: não, esse não é um filme sobre um cara de cabelo engraçado correndo atrás de uma mala.

Aliás, a tal mala é o que o mestre Hitchcock chamaria de McGuffin, um determinado elemento dentro da trama (objeto, indivíduo ou acontecimento) que tem, à primeira vista, grande importância dentro da obra, mas que serve apenas para desencadear uma série de acontecimentos maiores que tragam à tona a verdadeira ‘mensagem’ do filme. Dizer que o filme é sobre a caçada a uma valise é o mesmo que afirmar que Janela Indiscreta é sobre um assassinato na vizinhança, O Poderoso Chefão conta a história de uns carcamanos mafiosos, Blade Runner fala sobre robôs assassinos revoltados ou que A Mosca é sobre um cientista que vira um monstro.

Hitchcock nos levou, a partir de um possível assassinato no prédio da frente, à mais perfeita viagem metalingüística já filmada sobre a força do fascínio do cinema em nossas vidas; Coppola construiu uma das mais completas análises das relações de poder na sociedade; Ridley Scott nos brindou com um sci-fi referencial sobre fé e religião; Cronenberg fez, por meio da escatologia, uma brilhante relação entre o avanço da tecnologia e a regressão dos valores humanos. Aqui, Joel e Ethan Coen tornam esse objeto primordial para o desenrolar dos fatos e, ao mesmo tempo, o fazem quase completamente irrelevante perto do que realmente eclode após seu desaparecimento. Seu papel era dar início a uma onda de violência e brutalidade que, assim como a enorme sombra negra que cobre o deserto logo na primeira cena do filme, inevitavelmente se apodera de nosso mundo pelos motivos mais variados e (numa conclusão assustadora) cada vez mais insignificantes. A famigerada mala é tão irrelevante que o entendimento dos fatos não seria alterado mesmo que dentro dela tivesse Césio 137 ao invés do dinheiro (ou mesmo se ela não tivesse seu conteúdo revelado).

Após essa breve análise, pode-se perceber que esse não é um filme tão ‘fácil’ como boa parte do público esperava. E não só pela mala, mas também pela construção dos personagens, todos carregados de uma simbologia tão complexa quanto próxima de nosso entendimento.

Começando pelo assassino Anton Chigurh, largamente ridicularizado por seu visual esdrúxulo, é fácil um dos personagens mais viscerais do cinema, tanto pela interpretação do Bardem (indiscutivelmente a melhor de sua carreira – até agora) quanto por seu ar emblemático. Ao mesmo tempo em que mata sem maiores remorsos (atentem à estranha arma de ar-comprimido que ele carrega durante o filme – usada normalmente para abater animais, mostra o quanto a vida de um homem vale tanto quanto a de uma vaca), possui um questionável código de honra regido por um jogar de moeda. Tem as expressões de um demônio em contraste com seu estranho corte Chanel. É cruel em essência, mas carrega inconscientemente certa ‘doçura’ (a pronúncia de Chigurh é quase idêntica a de ‘sugar’). Isso tudo o distancia da imagem de um assassino comum, dificultando a cada nova aparição uma possibilidade de identificação com um ser real, tornando-o mítico, até.

Porém, mesmo sendo o personagem de maior destaque dentro do filme, não se destaca tão largamente ante os demais. Tanto Josh Brolin quanto Woody Harrelson merecem a referência (mesmo esse último não tendo tanto tempo em cena quanto os demais). Até Tommy Lee Jones, que aparece bem pouco, merece destaque, haja visto a importância de seu personagens (de todos, aliás – mas isso será citado mais adiante).

As glórias maiores nem devem ser direcionadas às interpretações (por melhores que sejam), mas ao conjunto como um todo. A interação entre os demais personagens e os elementos cinematográficos concede à obra ainda mais força. Os Coen imprimem aqui seu maior exercício de direção até então, firmando-se definitivamente entre os maiores gênios de qualquer esfera cinematográfica. Fica difícil saber o que é mais poderoso numa análise individual (sem cair novamente em elogios a já citada construção de personagens).

A mise-en-scène é espetacular. Incrível como eles conseguem aliar a riqueza de conteúdo a um forte apelo visual e, dadas algumas atmosferas, sensorial. Da fotografia aos elementos em cena (a própria arma de ar do Chigurh parece ter vida própria – as sombras ou recantos de paredes nunca tiveram tanta importância antes em nenhum de seus filmes). A ausência de trilha nem chega a ser sentida, uma vez que até a respiração ofegante dos personagens são mais que suficientes para embalar as cenas (vide a perseguição no deserto ou nas ruas da cidade). Eles fogem dos preceitos do estilo, mas fazem uso dos mesmos com maestria quando necessário, provando que possuem total domínio dos elementos cinematográficos e escapando da subversão pela subversão simplesmente, evidenciando mais ainda seu compromisso com o cinema.

Mas voltemos à trama. Não ao que está ali, explicitado em qualquer sinopse do filme, mas no que há de verdadeiramente representativo, que está por trás de tudo e realmente motivou às ações e omissões dos envolvidos. O que diabos essa correria toda quer dizer afinal? Várias são as interpretações sobre, e apegar-se apenas a uma delas pode ser um erro. O fato é que há uma grande dose de violência transpirada por cada frame. Não a violência física explícita, muito além: assim como Anton carrega certa doçura em seu nome, os demais trazem consigo a brutalidade de uma degradação moral tão crescente quanto inconsciente. Temos vilões, mas não verdadeiros heróis, e isso graças ao meio em que tudo ocorre.

Indo mais além, os quatro personagens principais representam mais que classes ou posturas sociais. Alegoricamente seriam os quatro elementos principais da existência da humanidade: Chigurh seria a morte, implacável e que sempre segue seu curso, independente de quem esteja em seu caminho (nem mesmo uma mulher grávida tem seu perdão), não podendo ser detida por contra-propostas ou argumentos, apenas por um lance de sorte (a moeda que oferece as mesmas chances de viver ou não); Llewlyn é seu maior (e eterno) oponente, a vida, e sua odisséia após adquirir a mala seria o início de nossa jornada de fuga que inicia com o nascimento (ele começa a preparar sua fuga logo que pega a maleta, mesmo sem saber se alguém iria atrás dele – seriam os anos da inocência em que ainda não sabemos do destino inevitável a todos?).

Wells representa a redenção ou, numa concepção que todos nós conhecemos bem, a religião, que entra na trama para apresentar a Llewlyn uma forma de salvação por meio da renúncia, quando diz que ele poderia escapar de seu algoz se desfazendo do dinheiro (não por acaso ele entra em cena quase na metade do filme ou, no caso, da ‘jornada’ de Llewlyn – valores religiosos são adquiridos com o tempo, não se nascem com eles). Ele também mostra que, apesar de certo conforto, ela ainda não pode impedir o decurso da morte (o diálogo desesperado entre ele e Chigurh – um dos tantos pontos altos do filme – evidencia isso).

Por último (e talvez o mais importante), o xerife Ed Tom, a voz da justiça e, tal qual, em maior parte do tempo, faz as vezes de narrador e espectador, transitando em paralelo a tudo que acontece, tentando dar sua visão imparcial e, como esperado de si, mediar. E seria ele bem a representação do título do filme que, originalmente traduzido, seria de uma terra ‘onde os velhos não têm vez’. Ele representa a necessidade da renovação dessa justiça, a inevitável inversão dos valores. O mundo deveria evoluir de acordo com o que se tem por ‘justo’, não o inverso (como ficara cada vez mais evidente), onde os conceitos do que é justo deveriam se adaptar à sociedade (mesmo que esta esteja cada vez mais podre e corrompida).

Bem, à parte do virtuosismo da direção dos Coen e das interpretações do elenco principal, estes acima de qualquer crítica, essas foram minhas modestas impressões sobre a obra e seus significados. No fim há um pessimismo enraizado que se manifesta mesmo nas situações de acalento (como no diálogo de Llewlyn com a sogra: “Não se preocupe, tudo vai ficar bem!”“Como vai ficar bem? Eu tenho câncer!”) e que acabam, ao término dos quase 130 minutos de projeção, convergindo e ratificando seu título original: cada vez mais o mundo se corrompe e se você quiser continuar nele, tem de se corromper também.

Pode soar excessivamente pragmático e, realmente, o é. Evoluímos tanto e nos distanciamos dos animais para, no final, acabarmos regredindo ao ponto de sermos abatidos com tanto desdém quanto a uma vaca, e se você for um dos ‘fracos’, não irá muito além de um mero espectador e terá de se contentar com a justiça ‘dos velhos’ somente em sonhos como os de Ed Tom no final do filme, mesmo sabendo que, assim como o velho xerife, toda e qualquer forma de esperança irá findar em um “… e aí eu acordei!”.

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PS.: Ainda assim, todos têm o direito de gostar ou não. Mas, por favor, que venham com um argumento que  não seja “é só um filme sobre um cara de cabelo fálico correndo atrás de uma mala!”.  É o mínimo de respeito que essa obra-prima merece.

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5/5

Ficha técnica: Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men) 2007, EUA – Dir.: Joel e Ethan Coen – Elenco: Josh Brolin, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Woody Harrelson, Stephen Root, Kelly Macdonald, Garret Dillahunt, Tess Harper, Barry Corbin, Beth Grant, Gene Jones.

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