driller killer

– por Bernardo Brum

De uma convergência surtada e esquizofrênica entre o movimento punk, a contracultura cinematográfica setentista, o nascente subgênero slasher e as aspirações Polanski-Lynchianas de um então estudante de cinema que concluía o seu curso, nasceu O Asssassino da Furadeira, primeiro longa-metragem de Abel Ferrara no circuito cinematográfico de fato (o anterior era um pornô softcore, Nine Lives of a Wet Pussycat, que não chegou a lugar nenhum).

Se Scorsese, que havia descoberto as ruas de New York para poder tecer algumas toneladas de crítica social, andava num entrave e tudo que conseguia produzir era coisas como o documentário The Last Waltz e o musical-romântico New York New York, coube então a um jovem e revoltado Ferrara continuar ao que momentaneamente Martin parecia ter esquecido no momento – o estilo urbano, agressivo e pirado de obras como Caminhos Perigosos e Taxi Driver.

Com um enredo tão simples quanto qualquer filme de terror barato que foi lançado aos montes nos anos setenta – um pintor, morador de um buraco qualquer, enlouquecido por ser esnobado por suas duas namoradas, por uma banda punk que se hospeda no prédio vizinho e toca o tempo inteiro, e por não conseguir pintar um quadro decente que pagasse o aluguel, compra um “cinto-tomada” portátil e uma furadeira, passando a matar todas as pessoas que encontra, começando por mendigos e lentamente evoluindo para pessoas mais próximas – Abel fez um filme que provavelmente iria decepcionar os fãs de Wes Craven e Tobe Hooper, já que o foco é mais no delírio e na perturbação do que, necessariamente, na violência.

Pois é, apesar de mergulhar nos mares vigorosos, exagerados e histéricos do cinema exploitation, Ferrara mergulha com o próprio refinamento revestindo-o como um escafandro. Assim, entre uma morte bizarra e outra (que, a bem da verdade acabam por ser a parte menos interessante do filme – afinal, não existem cinco formas diferentes de matar alguém com uma furadeira. Sei lá, acho que nem duas.), temos também que assistir estripulias e loucuras experimentais do diretor que logo abandona qualquer narrativa lógica e lúcida para se esbaldar em punks chapados, mendigos nojentos, subjetivas documentais, panorâmicas tortas, iluminação saturada e montagem picotada. Longe de um Roger Corman para financiar suas primeiras viagens, quem apadrinhou Ferrara, muito provavelmente, foram algumas substâncias químicas ilegais, a iconoclastia efervescente de qualquer pessoa ligada à arte na cidade até então, e a explosão revoltada do punk novaiorquino: daí se explica a vontade de se distanciar de qualquer subversão arcaica – se até hoje cineastas contemporâneos a Ferrara querem subverter usando músicas dos Rolling Stones, ou de bandas glam como o T. Rex, o que veríamos é que, começando no punk underground, o diretor logo ia adentrar o universo do hip hop – novo reduto para ele aprontar mais meia dúzia de pirações brilhantes.

Sendo aqui cômico, violento, incoerente, incômodo, fragmentado, Abel Ferrara fez o famoso “filme para iniciados”. Dificilmente alguém que começou a assistir filmes há pouco tempo irá se acostumar os com closes obsessivos de objetos aparentemente sem importância, o roteiro cíclico de pessoas se matando intercalado com um hilário e pretenso vanguardismo de filmar uma banda punk fazendo careta e tocando músicas irritantes por dezenas de minutos a fio, tampouco irá suportas as brincadeirinhas de Ferrara (por exemplo, a genial sequência do “sonho psicótico regado a musiquinha de ninar”).  Pois é, se segundo John Lennon, o sonho tinha acabado, não me perguntem o que havia começado aqui. Uma verdadeira usina de força do cinema na pele de um verdadeiro auteur, um pesadelo promovido por abstinência de crack… Vai saber.

3/5

Ficha técnica: O Assassino da Furadeira (The Driller Killer) – 1979, EUA. Dir: Abel Ferrara. Elenco:  Abel Ferrara, Carolyn Mars, Baiby Day, Harry Schultz, Alan Wynroth, Maria Helhoski, Richard Howoroth

Anúncios