halloween-2007-01-4

– por Luiz Carlos Freitas

Não gostei de A Casa dos 1000 Corpos, mas dei uma nova chance ao roqueiro e fiquei surpreso com a sequência, Rejeitados Pelo Diabo, um filme que, se não inovador, tem todos os méritos pelo esforço do diretor de tirar grandes nomes do cinema de horror dos 70’s/80’s do ostracismo, bons momentos de tensão e algumas homenagens ao gênero, além do final a la Thelma e Louise e o subestimado William Forsythe uber-loucão (sem falar que Lynyrd Skynyrd – uma de minhas bandas favoritas – toca o filme todo). Mas esse Halloween – O  Início é tão ruim, mas tão ruim que deu vontade até de queimar os meus CD’s do White Zombie e colocar meu DVD de Rejeitados na boca de um sapo.

O pânico já começou quando foi anunciada a refilmagem que, baseado em um roteiro adaptado praticamente igual ao do original, contaria as “origens” do Myers. Em 1978, John Carpenter trazia ao Slasher uma carga psicológica jamais vista antes num filme do gênero, nem mesmo no clássico Banho de Sangue, do Bava. Michael Meyrs era a representação suprema do mal: cometeu seu primeiro crime na infância sem nenhum motivo aparente. Internou-se, cresceu e numa bela noite, foge do sanatório e volta para matar a irmã. Ponto!

Não há motivação para ele. Não há uma justificativa para seus atos. Ele simplesmente mata. E isso é uma das possibilidades mais aterradoras que podemos imaginar, a de que qualquer um ao nosso redor pode carregar consigo tamanha psicopatia ao ponto de sair matando a todos sem motivo, sem razão. A possibilidade de um mal tão profundo, de um ser tão perverso que transcende o limite da lógica. Eis aí o segredo do Carpenter. Toda a força de sua obra-prima residia justamente no lado obscuro e desconhecido das motivações do assassino. Esse, inclusive, é um dos principais fundamentos de boa parte dos filmes de terror, do homem contra um poder que ele desconhece e, por conseguinte, não tem como enfrentar, descobrir fraquezas.

Mas então, se um filme que tem suas “bases” apoiadas justamente no desconhecido, pra que uma explicação? À partir daí, já fiquei – como dizemos aqui na Paraíba – “encabulado”. Finalmente crio coragem e, dando um voto de confiança ao Zombie, baixo esse aqui. Bem, não preciso me prolongar muito pra dizer que esse é um dos maiores arrependimentos de minha vida. Esse equívoco (não chamo “isso” de filme nem ameaçado de morte) de responsabilidade do Rob Zombie é uma das piores coisas que já vi até hoje.

As tais “origens” para a psicopatia de Myers são as mais imbecis e clichês possíveis: uma criança perversa, que torturava animais, vítima de bullying e tinha uma família desestruturada, constituída pela mãe stripper (Sheri Moon Zombie), a irmã vadia (Hannah Hall) e o padrasto alcoólatra (Willian Forsytle). E só. Ah, tá, brilhaaaante explicação para a origem de um dos maiores assassinos da história do cinema.

Para Zombie, Myers era uma criança problemática que revoltou-se contra o mundo e decidiu sair por aí matando a tudo e a todos. Mas como isso explica o fato de seu super vigor, de levar seis tiros, uma facada no pescoço e continuar seguindo em frente, matando?

Aliás, houve uma total desconstrução do personagem em sua vida adulta. Antes, Myers era sorrateiro. Suas aparições eram pequenas ao longo do primeiro filme e a construção da tensão estava no suspense crescente, na expectativa de algo terrível que estava por acontecer a qualquer momento. Enquanto o Michael do Carpenter poderia estar escondido em qualquer sombra de canto de parede e se mostrar suavemente, sem pressa (e, justamente por isso, bem mais aterrador), o do Zombie é discreto como um ensaio de banda marcial pra desfile de Sete de Setembro. Chega como um trator, derrubando paredes e portas com socos. Até mesmo um cego (e surdo) perceberia sua aproximação a tempo de correr, tamanha sutileza do sujeito.

E o problema não é só com o Myers. Todo (repito, TODO) o elenco de apoio transcende o limite do insuportável. À exceção de Malcon McDowell (o “menos ruim” desse balaio) e outros poucos personagens sem importância, resta-nos um grupo de atores jovens (e ruins) que não servem de nada à trama. Não há um único diálogo entre eles em todo o filme no qual se note um mínimo interesse em trabalhar um roteiro mais elaborado. O que temos são piadas sobre sexo e palavrões (nem um filme estrelado pelo Christopher Walken e o Samuel L. Jackson e dirigido pelo Scorsese teria tantos “fuck” dito por minuto quanto esse  aqui) jogados para reafirmar a visão de mundo do Zombie: os homens são boçais cabeludos e as mulheres vadias (não que eu tenha algo contra isso).

Do ponto de vista técnico, o Zombie consegue ser tão (ou mais) incompetente ainda. A edição é porca, os enquadramentos (coisa que até Ed Wood sabia fazer) são péssimos e aquela câmera com Mal de Parkinson em fase avançada parece ser mesmo sua “marca” a ser carregada até o fim da carreira (que, espero eu, para o bem do cinema – e da humanidade – chegue o mais depressa possível). A sua edição consegue ser mais dolorosa à vista que as do Tony Scott (e isso é mesmo um grande feito).

Além disso, o longa transpira pretensão à cada frame. Cena após cena vemos o Zombie gritando “Ei, quero entrar para os anais do cinema, modafocka!”, usando de alguns maneirismos baratos na tentativa de criar aquela que seria a cena antológica de sua carreira. O maior exemplo disso é o massacre da família Myers ao som de (se preparem) ‘Love Hurts’. Isso mesmo, aquela baladinha grudenta do Nazareth que fez seu pai chorar em algum boteco após as brigas nos tempos de namoro com sua mãe virou uma impensável trilha de chacina. “Mas se o Kubrick embalou um estupro com ‘Singin’ in the Rain’ …” deve ser a desculpa que o Zombie usa quando questionado sobre.

O final, assim como todo o “desenvolvimento” (sic), é ridículo. Na verdade, foram filmados mais de quatro finais diferentes e, como esperado, todos são igualmente risíveis e, óbvio, todos com gancho para uma inevitável sequência. O único detalhe é que para a edição final foi escolhido o pior deles (não sei porque isso não me deixa surpreso). Só não é pior por carregar um “simbolismo” maravilhoso: os créditos subindo representam a libertação de quem perdeu quase duas horas de sua vida com isso.

Enfim, essa não é a primeira vez que tentam “explicar” Michael Myers na série. Outras das sequências (terríveis, por sinal – só considero, além do primeiro, a segunda parte e o H20: Halloween – 20 Anos Depois) arranjaram várias desculpas, uma sobrinha e até uma antiga Maldição Druida (!?!) para justificar toda a aparente invencibilidade do Myers. Claro, nenhuma dessas explicações soou convincente. Pelo contrário, contribuíram para que o personagem, um dos maiores do horror (e do cinema em geral), fosse visto cada vez mais como uma grande piada. O Myers cabeludo e de quase catorze metros de altura do Zombie só fez ajudar a denegrir mais ainda.

Bem, melhor parar de lembrar “disso” por aqui, afinal grandes traumas devem ser deixados no passado. Sério, Uwe Boll teria feito melhor. Pelo menos ele já deixou de se levar a sério, diferente do Zombie, que ainda se diz “Profeta Salvador do Cinema”. O próprio Rob deveria se martirizar todos os dias por ter aceitado levar isso adiante (eu mesmo me envergonharia bastante se o fizesse). O que ele tentou aqui não tem defesa nem perdão.

É pedir para, ao esbarrar com o Uwe Boll, Bruno Mattei, Jess Franco ou Andrea Bianchi (verdadeiros monstros na arte de NÃO fazer cinema) na rua ao sair para comprar pão Sábado de manhã, e ouvir de um desses um “Rá, como você é estúpido, cineasta de merda! Me envergonho por você!”, ter de abaixar a cabeça e aguentar caladinho, caladinho (e ainda oferecer um dos pães).
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1/5

Ficha técnica: Halloween – O Início (Halloween) 2007, EUA – Culpado: Rob Zombie – Cúmplices: Malcolm McDowell, Scout Taylor-Compton, Tyler Mane, Daeg Faerch, Sheri Moon, William Forsythe, Danielle Harris, Kristina Klebe, Skyler Gisondo, Danny Trejo, Hanna R. Hall, Tom Towles, Bill Moseley, Leslie Easterbrook, Steve Boyles.

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