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– por Guilherme Bakunin

Acredito que aceitação seja uma das palavras-chave quando o assunto é Amantes. James Gray é um cineasta novo, porém aclamado. Começou a carreira no meio dos anos 90; em 2000, lançou Caminhos Sem Volta, thriller psicológico interessantíssimo, que serve de bom apoio para o que sua filmografia vem se tornando; em 2007 (e a demora de sete anos pra lançar um novo trabalho diz muito sobre como o trabalho desse provável gênio foi recebido), foi a vez de Os Donos da Noite, um trabalho mais externo que o anterior, e apesar de convencional, é notável a habilidade de Gray em manipular emoções. Agora, com um hiato bem menor, em 2008, o diretor mostrou à Cannes sua nova criação: Amantes é um filme sobre um homem depressivo, transtornado com a perda de um amor, que não possui forças nem mesmo para por fim a seu sofrimento. Leonard, depois de se separar da noiva, voltou a morar com os pais e é através deles que conhece Sandra, filha de um companheiro de negócios do pai, fortemente apaixonada por ele. Mas também conhece Michelle, sua vizinha, uma jovem problemática viciada em drogas e de caso com um homem casado.

Gray vai direto ao ponto. Leonard, por razões inexplicáveis, se apaixona por Michelle desde o primeiro instante. A presença de Paltrow é, para o personagem, desconcertante, destacável. Quando ele e Michelle saem para uma boate, ela está de vermelho e todas as luzes apontam para o casal. É o expressionismo básico porém maravilhoso, impetrado pelo cineasta afim de realmente mostrar que para Leonard, é simplesmente ela.

Por outro lado, a família de Leonard força a união com Sandra. Presença estável, segura, mimetizada, Vinessa Shaw poderia (?) levá-lo ao conforto com sua própria vida, além de ajudar no pequeno negócio de sua família, a lavanderia à seco.

É difícil pensar que Leonard, sequer por um instante, leva em consideração a opinião de seus pais. Na verdade, sempre investiu insistentemente em Michelle. Sandra continuava a receber esperanças de Leonard, mas era, para ele, um estepe, algo que pudesse oferecer a ele a certeza de que, não importa o que aconteça, ele terminaria com alguém. Nesse ponto, as locações e a foto do filme diz muito sobre o que Leonard pensa sobre seus dois ‘amores’. Ele encontra Sandra em interiores, lugares claustrofóbicos, nocivos, fechados, enclausurados, escuros, com uma paleta de cores marrom, fria, exatamente como era antes de conhecê-la e conhecer Michella. Esta, por sua vez, encontra Leonard em locações variadas, ambientes magníficos, iluminados, abertos, livres, com cenas permeadas de cores igualmente diversas, mas que trazem certo primor à ambientação, aos olhos e porque não, aos sentimentos. Gray evoca mais uma vez o externo para transparecer os sentimentos de Leonard e fazer com que nos naufraguemos em seu personagem.

Belo em Amantes, além de suas cores, são seus personagens. A construção é sublime: todos os atores do filme agem por conta própria, possuem seus sentimentos, suas aspirações e, embora nem sempre os entregue diretamente, os olhares, as expressões e os gestos denunciam quem aquelas pessoas realmente são. É através da fria primeira conversa entre Leonard e Sandra, por exemplo, onde ambos escondem sua essência, por assim dizer, sabemos que o casal, provavelmente, não tem futuro. Nada que possa ser de fato inferido, mas é apenas a impressão, já que os dois nunca realmente parecem confortáveis com a presença do outro. É também através da imagem que Gray nos diz como o relacionamento entre os dois é forçado pelas famílias; apesar de Ruth dizer, duas vezes, que o que importa é primordialmente a felicidade de seu filho, seus atos contradizem suas falas e para Gray, são eles que contam.

Nesse universo particular, onde os sentimentos explodem na tela através de movimentos, cores e som (o início do filme, com Leonard em contra-plongée e o vento feroz indo contra seu corpo jamais sairá da minha cabeça), a aceitação parece ser a chave do cineasta e roteirista para explicar o amor. A aceitação está na clara opção que Leonard deve tomar para deixar todos contentes: ele mesmo, ao encontrar segurança e estabilidade na vida emocional, seus familiares, tanto por terem essa segurança do filho quanto pelos negócios, Sandra, uma personagem definitivamente traumatizada em relacionamentos e sua família. A aceitação está no olhar de Michelle para a câmera, pedindo misericórdia ao público que julga, e recebendo o amor de Leonard no telhado. A aceitação está novamente em Michelle, ao decidir voltar com seu amante, agora que ele rompeu seu casamento, simplesmente porque ela gosta dele e não de Leonard. E finalmente, está em Leonard, olhando novamente para o público, aceitando o que o destino lhe entregara, recebendo, sem amor e com dor, o amor de Sandra, que não pensa em corresponder, mas pensa apenas em aceitá-lo, se entregar a ele, pela pura falta de opção.

Nesse sentido, é intrigante perceber que Amantes não difere de outros trabalhos de James Gray nessa visão fria da paixão. Caminhos Sem Volta e Os Donos da Noite trabalham com o sacríficio no relacionamento amoroso e aceitação, sim, de que isso fora necessário para atenuar as circunstâncias (família). Em Amantes, esse paralelo novamente está presente, diferindo-se apenas no foco, dado muito mais a um único personagem do que a um grupo deles.

Amantes está entre os cinco melhores filmes dessa década. É magnífico, gigantesco, épico ao mesmo tempo que é íntimo, pessoal, introspectivo. A harmonia do filme é evidente, todos os seus aspectos são grandiosos, belos: o roteiro de Gray é maravilhoso, forte, as atuações são multifacetadas, profundas e a direção, precisa. Três aspectos poderosos, que se destacam nessa que é a maior obra-prima de um diretor muito, muito promissor.

5/5

Ficha Técnica: Amantes (Two Lovers) – 2008, EUA. Dir.: James Gray. Elenco: Joaquim Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabella Rossellini, Moni Moshonov.

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