profondo rosso 6

– por Bernardo Brum

Poucos foram os diretores que compreenderam os mecanismos do cinema tão bem quanto Dario Argento em Prelúdio Para Matar, que havia acabado de demonstrar uma nova maneira de se fazer cinema de horror em seus primeiros filmes – a “trilogia dos animais” formadas pelas obras O Pássaro das Plumas de Cristal, Quatro Moscas no Veludo Cinza e O Gato das Nove Caudas – herdada do trabalho de gente feito Mario Bava em seu Seis Mulheres Para o Assassino, mostrando uma nova forma de mesclar elementos de suspense e brutalidade gráfica com um refinamento estético impressionante, tudo em prol de elevar o cinema que ainda rascunhava a uma experiência perturbadora. Porém, como reza o velho clichê, nada preparou o mundo para o ano de 1975.

Prelúdio Para Matar é uma obra-prima sem precedentes ou paralelos na filmografia de Dario Argento.  Quando alcançou a maturidade cinematográfica, o diretor marcou os anais da cinematografia italiana e mundial com uma insuperável catarse da violência. Cada segundo de Prelúdio Para Matar parece ter um único e bem resolvido objetivo: deixar os nervos em frangalhos, a percepção sensorial atordoada e a mente violada com tamanha atmosfera construída. São poucos os filmes do próprio diretor que podem se dar o orgulho de competir com o universo distorcido, labiríntico e atordoante da obra. Dario não poupa esforços e não faz nenhuma concessão se o assunto é violar o espectador.

Sacana que é, o diretor se baseia levemente no conceito de Blow Up – Depois Daquele Beijo, de Antonioni (inclusive pegando o ator protagonista emprestado, David Hemmings), no que tange à construção de imagens e seus efeitos e consequências, assim como a única fonte possível dessa imagem sendo a lembrança que terá de ser perseguida, e joga numa história que em outras mãos poderia até soar meio clichê: uma testemunha de assassinato se une a uma repórter para investigar o crime, e no meio do caminho percebem que o assassino está seguindo os passos deles. Um enredo tão simples e que já foi utilizado por tantos outros diretores, nas mãos de Argento vira de cabeça pra baixo; quando só vemos os planos detalhes do corpo do assassino, quando ouvimos a trilha sonora cortante e sombria do grupo Goblin e testemunhamos a fotografia praticamente expressionista que deixa luzes e sombras pra lá para concentrar tudo na cor vermelha que percebemos que não estamos diante de qualquer filme. E aí, quando o espectador se transfigura no assassino, que percebemos que o roteiro comum, que a referência de Blow Up – Depois Daquele Beijo e esses elementos pervertidos convergem em um único ponto: a grande sacanagem de Dario Argento.

Ser vítima de agressão de qualquer gênero, sem o nosso consentimento, já constitui crueldade. Em Prelúdio Para Matar, então, o buraco vai mais embaixo: aqui, nós que vamos perseguir as vítimas, entrar em seus aposentos sem elas perceberem, nos escondermos quando elas se aproximarem e por aí vai, nas mais geniais (é, não tem outra palavra) sequências de travelling de câmera subjetiva de cinema. Sem o nosso consentimento. Nós iremos derramar um rio de sangue e ficarmos horrorizados por isso logo após. Só um pervertido como Dario Argento para entender essa característica que só o cinema pode fazer: nos jogar dentro de um ambiente de luz, imagem e som não para correr de um assassino, mas para sê-lo. Depois de uma experiência como essa, a câmera em primeira pessoa de, sei lá, A Bruxa de Blair e [REC] são brincadeira de criança.

Prelúdio Para Matar é a própria ópera italiana convertida em cinema de horror por excelência. As interpretações sempre serão exageradas. A violência urbana abordada à época de forma hiper-realista nos Estados Unidos é guiada à base de pompa e delírio. A verossimilhança é mandada à merda. Dario Argento, nós e o assassino temos um orgasmo sensorial à cada golpe de cutelo. O que é convicente para nós é caretice e pensamento pequeno para o diretor. Ele vai nos tirar o chão e o ar a todo momento que lhe for satisfatório. Não há limites no pesadelo de Argento. Há sangue, em sua enésima potência, inundando tudo, rompendo janelas, paredes, olhos, carne e psique. Não há como sair impassível ou indiferente. Ou saímos impressionados  ou detestando. Mas, invariavelmente, violados.

5/5

Ficha Técnica: Prelúdio Para Matar (Profondo Rosso) – 1976, Itália. Dir.: Dario Argento. Elenco: David Hemmings, Daria Nicolodi, Gabriele Lavia, Eros Pagni, Clara Calamai

Anúncios