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– por Luiz Carlos Freitas

Com suas origens no Expressionismo Alemão (a estética de cores escuras fortes e de grande contraste) e no Realismo Poético Francês (tramas fatalistas, com seus heróis fracassados em uma vida medíocre e, em geral, desacreditados de valores), o Noir tornou-se um dos mais referenciados e, sob a ótica da classificação, controversos estilos da história do cinema.

Entretanto, contrariando grande parte dos estudiosos do tema, que batem o pé para a limitação do Noir ao seu “Período Clássico”, décadas após Welles nos apresentar seu A Marca da Maldade (1958) (tido pela maioria como o último filme do Período Clássico), o cinema nos brindou com representantes legítimos do estilo, como Los Angeles – Cidade Proibida (1997), de Curtis Hanson, e o que pode ser considerado o maior expoente do estilo fora do período Clássico, Chinatown (1974), de Roman Polanski (uma de suas maiores obras-prima – se não a maior). Independente do período, os filmes traziam consigo todas as características de um filme Noir: personagens (e senso de sociedade) de moral e valores duvidosos, tramas intrincadas e pessimistas, além das tradicionais “Femme Fatale” e o submundo do crime como pano de fundo (geralmente, ambientados entre casas de jogos e prostituição), além da própria trama girando em volta de um crime (e cheia de reviravoltas).

Em 2006, o diretor Brian De Palma, que já havia “revisitado” Hitchcock em grandes obras-prima do suspense, como Vestida Para Matar (1980) e Dublê de Corpo (1984), e homenageado Antonioni com seu brilhante Um Tiro na Noite (1981), resolve se aventurar no Noir com seu Dália Negra. Quase duas décadas antes, em 1987, ele já havia firmado seu estilo próprio com Os Intocáveis (tido por muitos – inclusive este que vos escreve – como sua maior obra-prima), uma primorosa incursão ao mundo da máfia de Chicago. Dessa vez, ele procurou fazer um legítimo Noir, com todos os elementos já citados seguidos à risca, assim como Hanson e Polanski.

Na trama, baseada no livro de James Ellroy (este por sua vez livremente inspirado em um caso real – e até hoje sem solução – de assassinato de uma jovem atriz), Bucky Bleichert (Josh Hartnett) e Lee Blanchard (Aaron Eckhart) são dois ex-boxeadores que sobrem rapidamente em suas carreiras por conseguirem obter verba do governo ao departamento de polícia numa luta de boxe arranjada com o objetivo de trazer prestígio à corporação junto à população. Enquanto investigavam outro caso de assassinato, acabam se envolvendo na investigação do assassinato de uma jovem atriz, Elisabeth Short (Mia Kirshner), que teve seu corpo partido em dois e o rosto brutalmente deformado. O caso logo cria repercussão e, numa alusão feita por jornalistas ao filme do Alan Ladd que havia sido lançado naquele ano, Dália Azul (coincidentemente, um grande Noir – e pouco lembrando), o caso passou a ser chamado de “Dália Negra”.

De uma grande perícia técnica, temos aqui o que os anos trouxeram de melhor ao diretor em termos de uso de câmera lenta, posicionamento, ângulos, edição, uso de trilha e uma fotografia espetacular (de tão bela, chega a ter vida própria, um verdadeiro personagem no filme), além da caracterização perfeita de cenários e figurinos, entre outros recursos que o De Palma sabe dominar como ninguém. Costumo dizer que todos os seus filmes, até mesmo os mais fracos, têm pelo menos um grande momento. Sua habilidade para construir atmosferas e brincar com tensão do espectador é invejável (aquela câmera subjetiva na cena em que Bucky conhece a família de Madeleine é de deixar qualquer um tonto – fantástica).

O filme já começa com uma panorâmica da cidade, num conflito entre policiais e imigrantes. A câmera passeia deliciosamente em meio à correria, vitrines quebradas e carros em chamas até chegar a Bucky e Lee, que brigavam num beco com alguns baderneiros. A cena é linda demais, assim como várias outras ao longo do filme, como o momento em que somos apresentados à Kay Larke (Scarlett Johanson), com a câmera subindo as escadas e girando até parar com um close em seu rosto ou o tiroteio próximo ao terreno onde encontram a “Dália”.

Começa com um belíssimo plano-sequência acima dos prédios (em alguns momentos, bem semelhante ao famoso plano inicial do já citado filme do Welles, A Marca da Maldade), com uma moça gritando desesperada; a câmera a acompanha calmamente pela rua e muda o foco para um homem e sua mulher, acompanhando-os até voltar ao mesmo ponto, focando o carro onde Lee e Bucky faziam vigília. Toda essa sequência dura apenas alguns poucos segundos, mas já vale o filme (bem como o tiroteio que a procede).

No entanto, ainda não são os pontos altos (do ponto de vista da tensão) do filme. A luta de boxe um pouco antes é um verdadeiro espetáculo, absurdamente bem editada e dirigida (o soco final e o esguicho de sangue arrepiam), perdendo apenas para uma cena mais próxima ao final, também envolvendo uma escadaria (lembram de Os Intocáveis?) e com desfecho trágico em uma fonte. Apesar de alguns erros, aqui os fãs do De Palma poderão se deleitar com seus maravilhosos enquadramentos, brilhantismo no uso da câmera lenta e trilha sonora angustiante. Sem pestanejar, afirmo ser o melhor momento do filme.

Todavia, há um abismo imenso entre a obra do De Palma e a do Polanski. O polonês tinha a seu favor um roteiro simplesmente brilhante (que, ao lado de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen, e as duas sequências da saga dos Corleone, em O Poderoso Chefão, do Coppola, encabeça a lista dos melhores de sua década), com uma estrutura narrativa muito bem elaborada que dá ênfase a cada um dos elementos clássicos do Noir, das reviravoltas geniais na trama, passando pela caracterização de época e dos personagens, chegando ao seu final “inconcluso”, bem diferente do roteiro do filme do De Palma que (e me desculpem o termo) é uma grande porcaria.

Cheio de falhas, o desenvolvimento da trama se dá de forma bem mais confusa que o necessário. Vários pontos ficam incompreensíveis ou com explicações totalmente inconvincentes. A justificativa para a grande (e repentina) obsessão de Lee pela moça assassinada (chegando a afetar seu casamento e o relacionamento com o amigo) é rasa e não convence em momento algum. Aliás, um dos pontos centrais da trama, o relacionamento (que acaba em triângulo amoroso) entre os três protagonistas não tem base alguma. O modo como a amizade de Bucky e Kay se transforma em atração é uma incógnita. O próprio sentimento entre ela e Lee fica obscuro dado momento do filme (não fica realmente claro se eles se amavam ou era um casamento de interesse).

A resolução do crime, que deveria ser o ponto alto da trama, não empolga. A versão apresentada é até interessante, mas se apresenta de forma extremamente medíocre, chegando a comprometer até mesmo a lógica de alguns fatos. Os flashbacks na hora da revelação (outra característica sempre presente nos filmes Noir) utilizados de forma grosseira, aliados aos péssimos diálogos, só tornam tudo mais confuso e difícil de aceitar.

Além disso, o filme tem uma das piores escalações de elenco das últimas décadas. O que passava pela cabeça do De Palma para achar que o Josh Hartnett tinha culhão suficiente para protagonizar o filme? Ele é tão expressivo em cena quanto uma cafeteira elétrica. Em alguns momentos, chegava a ser risível sua tentativa de transmitir emoções (juro que quase gargalhei com seu olhar de raiva ao descobrir quem era o assassino). Até o Aaron Eckhart (um bom ator, de fato) estava péssimo, caricato ao extremo, bem mais do que o papel exige, não convencendo em momento algum. Fechando o trio de estrelas, temos Scarlett, totalmente apática (e tão linda quanto), que além de protagonizar umas das mais insossas cenas de sexo que já vi num filme, [involuntariamente] reafirma que (coincidentemente ou não) só consegue demonstrar algum talento atuando sob a tutela do Woody Allen.

O resto do elenco não fica atrás. Até mesmo a Fiona Shaw, de longe a melhor dali, estava completamente deslocada, em uma personagem que, apesar de sua importância na trama, aparece pouco e com bem menos destaque que merecia (além, é claro, dos diálogos podres). Mas o “destaque” mesmo fica com a Hilary Swank (uma das mais “sortudas” de Hollywood – ganhou dois Oscar’s pelas duas únicas atuações decentes na vida), interpretando Madeleine Linscott, fazendo as vezes da Femme Fatale do filme. Mais carrancuda e canastra do que nunca, certamente fez Rita Hayworth, Barbara Stanwych e Veronica Lake arranharem a tampa de seus caixões. Só se salva a Mia Kirshner (a tal Dália Negra do título), e mesmo assim, por suas breves aparições em filmes analisados pela polícia nas investigações (e interpretando uma atriz canastrona – é, acho que isso ajudou). O grande trunfo de Dália Negra é também um de seus maiores (dentre vários) defeitos. A parte técnica não só destaca-se no filme, como também compõe seu maior (e talvez único) mérito, tomando toda a força que poderia (e deveria) ser destinada ao desenvolvimento da trama e dos personagens.

Ao fim do filme, fica aquela sensação terrível de que o De Palma tinha uma grande obra-prima nas mãos, mas por uma péssima escolha de roteiro (e pior ainda de elenco), deixou a oportunidade passar, resultando em um filme cheio de grandes cenas, mas vazio em conteúdo e por muitas vezes bastante chato e cansativo.

Hitchcock pegou um de seus primeiros filmes (O Homem que Sabia Demais, de 1934) e o refilmou alguns anos após, nos presenteando com uma inconteste obra-prima (a versão de 1956, estrelada por James Stewart e Doris Day). Quem sabe o De Palma não possa tentar o mesmo daqui alguns anos? Fica registrado o desejo de um grande admirador de seu trabalho (e defensor até o fim).

3/5

Ficha técnica: Dália Negra  (Black  Dalia) 2006, EUA  –  Dir.:  Brian  De  Palma – Elenco: Josh Hartnett, Scarlett Johansson, Aaron Eckhart, Hilary Swank, Mia Kirshner, Fiona Shaw.

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