inglorious basterds 6

– por Bernardo Brum

Há um bom tempo, tanto por meio de filmes como pela simples via verbal, inúmeros cineastas, Orson Welles, Federico Fellini, Jean-Luc Godard, Andrea Tonacci etc. já denunciaram o que às vezes algumas pessoas demoram para entender: o cinema é a arte da mentira, da prestidgitação, de tornar a mentira mais interessante que a verdade, por aí vai. Bastardos Inglórios, a nova obra de Quentin Tarantino, é um tratado disso do começo ao fim, elevando aos extremos o estilo distinto que rascunhava desde Cães de Aluguel, alcançando a plena consciência do seu cinema-mentira em Kill Bill. Livre da coleira da referência pela referência que tanto apertou ele e vários de seus contemporâneos nos anos noventa ao início dos 2000, Tarantino aqui usa sua consciência, sua habilidade e seu talento de engolir e regurgitar não em prol do que veio antes, mas à favor, pura e simplesmente, do cinema.

Dito isso, é fácil perceber como o diretor elevou sua obra não em direção de um cinema de público específico, mas como era de sua ambição desde Kill Bill, transformar suas obras em filmes-evento. E desde o momento em que uma jovem que prende roupas para secar no varal ouve barulhos de motores de automóveis, e ao invés de se deslocar para ver de onde vêm o som, apenas tira um prendedor e “descortina” o indício sonoro e exibe os nazistas chegando  à uma casa francesa suspeita por esconder judeus, que o diretor encerra o espectador e sua obra no conceito de cinema pelo cinema: de fato, Bastardos Inglórios é uma experiência cinematográfica completa – nunca há deslocamentos de raciocínio que precisem de algo além de imagem, luz e som para ser compreendido. Nada de guias, cultura pop obscura ou algo que precise ir além da sala de exibição, que tantos criticavam no cinema Tarantinesco: é a arte audiviosual pura e simples – onde contemplamos, sentimos, testemunhamos intelectual e sensorialmente. Como Eisenstein, Hithcock, Chabrol, De Palma e tantos outros cansaram de repetir com suas câmeras de precisão cirúrgica. Chega a vez de experimentar isso, então, pelas lentes de Quentin Tarantino.

Aprimorando filme após filme a sua habilidade de costurar múltiplas histórias, este talvez seja seu ponto máximo como narrador de múltiplos acontecimentos. E aqui, todos eles convergem para uma casualidade fatal: tanto a formação do grupo de soldados judeus americanos chamados pelos alemães de Bastardos e que tem por principal missão entrar nas zonas de guerras vestidos de civis e lá matar tantos nazistas quanto possível, quanto a dramática história de uma garota que tem sua família morta pelo ‘caçador de judeus’, o general nazista Hans Landa (Cristoph Waltz em grande atuação), herdando um cinema de um casal de velhos que a abrigou, e subitamente vendo toda a alta cúpula nazi-fascista reunida em sua propriedade por intermédio da paixão que um herói de guerra alemão e novo astro de cinema que atuou em um filme sobre si mesmo nutre por ela, são peças da engrengagem da “arquitetura da destruição” de Tarantino, que promove uma anti-ópera americana de guerra com toques de suspense, noir, western e infiltração. O interesse não é de manter um mata-mata generalizado do início ao fim – e Quentin faz de tudo para inverter as expectativas – são poucas as missões que veremos dos Bastardos, o interesse por psicologismos é menor – seja o ódio que une o membro dos grupos ou o sentimento de vingança de Shosanna, a atenção é desviada para a causa-efeito que esses fatos exercem na história. O filme caminha sempre na linha perigosa entre o épico dos grandes acontecimentos e o cotidiano inusitado de um Godard, e Tarantino nunca se desiquilibra, incrivelmente. Das entradas gloriosas às mortes estúpidas, da rudeza imediatista de um Acossado e da estilização de um Meu Ódio Será Sua Herança, Tarantino avança livre e desimpedido com sua câmera onisciente e capaz de tudo, de todos os recursos, que rompe a narrativa linear para que só então seu sentido se amplie, que nos localiza e nos dá olhos de Bastardos (como quando identificamos os chefes nazistas, sabemos da alta capacidade combustão de um rolo de película, ou entramos a fundo na história de um membro de grupo) e somos tão voyeurs, assassinos e vítimas ao mesmo tempo que notadamente dá para ver que isso é o que menos interessa. Não há maniqueísmos no cinema de Quentin – pelo menos, nenhum claro. Todos são brutais e amorais e todos são vítimas da crueldade e violência alheia.

E então, depois de cada barreira ser derrubada – e já sabermos que ele é Deus naquele universo, que lá não há a realidade documentada, que nos seus filmes o mundo se distorce à favor da sua estética e da sua narrativa – que resta o ponto principal do filme e que ainda continuará afastando muitos do diretor: a ironia. A ironia é a mola-mestra de tudo que nos é apresentado. As atuações, os diálogos, as situações, os turning points, o enredo, e a própria forma do filme são a todo tempo construídas de forma sarcástica. A câmera se move de jeito sempre sacana – estende a violência, prolonga os diálogos, deixa os personagens de lado no meio desses diálogos para filmar o que ainda não sabemos e que só nos deixa com uma onisciência angustiante das desgraças que acontecerão, distancia os amantes, os une em meio de sangue, fogo e pólvora. A trilha sonora e a montagem de som são propositalmente e alternadamente cafonas ou exageradas. Nem figuras históricas que de fato existiram são poupadas: Hitler, Goering e Goebels são metralhados e carbonizados com uma raiva hilariante – o que grande parte do público espectador de um filme de segunda guerra provavelmente já ansiou fazer, tem sua idéia e seu desejo saciado por Tarantino – que esculpe o tempo, esculpe a imagem e esculpe seus próprios desejos de forma bem singular e rara nos dias de hoje.

No clímax, tanto o plano de incendiar o cinema da judia vingativa quanto o plano de explodí-lo dos Bastardos se concretizam, na mais literal catarse da violência – enquanto tudo o que vemos são chamas e os nossos ouvidos só captam gritos e disparos incessantes, voilá – a câmera mostra que o projetor do cinema continua eixibindo o filme – projetando o grande rosto preto e branco na fumaça. A sensação de cinema no meio do fim do mundo invade o espectador de forma tão urgente que é quase impossível resistir. Uma tela de fumaça, exibindo a grande risada vingativa – a essência do filme-evento em toda a sua opulência pervertida.

5/5

Ficha técnica: Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds) – 2009, EUA. Dir.: Quentin Tarantino. Elenco: Brad Pitt, Melànie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Diane Kruger, Daniel Brühl, Mike Myers, Julie Dreyfus, Samuel L. Jackson

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