halloween 10

– por Bernardo Brum

Com A Noite dos Mortos Vivos, no fim da década de sessenta, finalmente era instaurado o cinema americano contemporâneo de terror, tendo como antecessores o mestre do suspense Hitchcock e obras como Os Pássaros, H. G. Lewis e seu fracote porém pioneiro Banquete de Sangue e Mario Bava e seu Banho de Sangue vindos lá da terra da pizza. A nova forma de assustar o espectador abandonava os grandes e sinistros castelos mal-assombrados, cheios de aranhas, ratos e morcegos, perdidos em algum canto longínquo do mundo. Pelo contrário, o filme de Romero instalou de vez a tendência do terror urbano, sangrento e insano. Nada a ver com o tinhoso ou forças sobrenaturais: os assassinos, agora, batiam à nossa porta.

Com a consolidação do cinema exploitation, então, o terror chegou à raias inimagináveis. Foi o reinado de cineastas feito Wes Craven, com Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos, e Tobe Hooper, com seu Massacre da Serra Elétrica.  E Romero ainda iria continuar destilando crítica social através de filmes como O Exército do Extermínio e Despertar dos Mortos. Nada, contudo, preparou o mundo para aquele já distante ano de 1978, onde com o suspense de um Hitchcock, a violência estética de Dario Argento, os interiores tensos de Hawks e um punhado de obsessões próprias que John Carpenter, egresso de Assalto à 13ª DP e o telefilme Alguém Me Vigia, entrou pros anais da história do gênero com Halloween – A Noite do Terror.

Com um enredo absurdamente simples – um garoto, Michael Myers, que mata toda família é posto pelo resto da vida em um sanatório e, quando quinze anos depois, foge de lá e volta para a sua cidade  natal, escolhendo aleatoriamente um grupo de adolescentes – entre elas, a entediada babá Laurie Strode (uma ainda deliciosa Jamie Lee Curtis) – é contada por Carpenter com mão de mestre e revelava então para o mundo o talento de um autêntico autor de cinema, com uma consciência assustadora de até onde seu domínio estético-narrativo poderia chegar – só não mais assustadora que o resultado alcançado.

Só pela sequência inicial, toda feita em câmera subjetiva, que em cinco minutos explica tudo o que o espectador precisa saber sobre Myers e que continuações e refilmagens se enrolam cada vez mais pra explicar, Carpenter pega o conceito do espectador assassino tão genialmente utilizado por Dario Argento em sua obra-prima Prelúdio Para Matar, e logo de começo já cria um vínculo angustiante entre o espectador e o maníaco. Maníaco esse, tratado a todo momento, como algo que não pode ser parado – o “Bicho Papão” para as crianças, o “Mal Absoluto” para os adultos – que não passa apenas de uma dissimulação dos mais velhos para esconder o fato que estão tão assustados quanto alguém de cinco anos.

E não é possível parar Myers, em momento algum, simplesmente porque não se sabe nada sobre ele além do básico. Quais seriam suas motivações? Como ele percebe a realidade? Por que um grupo qualquer de garotas? Nunca se saberá. Nem o psicólogo, Dr. Loomis, faz a mínima idéia, mesmo após quinze anos tentando. As autoridades se negam a crer que exista, via de fato, alguém tão louco feito Michael. Adolescentes, imersos em seu mundo de sexo, vícios e fanfarronice, encaram o fato com desdém. E só as crianças, com seu medo de monstros do armário e bicho-papão, que são capazes de desconfiar que algo esteja errado, e que seja realidade. E só quando parece ser tarde demais, porém.

É isso que coloca Michael Myers sempre à frente de qualquer um. Apesar da loucura homicida, é esperto feito uma raposa. Myers se esconde, se camufla, age sorrateiramente o tempo inteiro, e só ataca, então, quando o espaço em questão é apertado demais para conseguir fugir. Carpenter, o assassino e o espectador estão um passo à frente, se aproveitam das sombras, pulam de lá, enforcam, degolam e estripam e então desaparecem na penumbra novamente. Mais oculto que Norman Bates – ele não se disfarça de dono de hotel, ele é considerado inexistente por viver sempre nas sombras, mais assustador que Leatherface e Jason Vorhees – ele é o pesadelo encarnado, pare para respirar, tropece ou se distraia perto de um lugar escuro e eis que ele surge, vá saber de onde, com um facão de açougueiro e irá embora mais uma vez – para prosseguir com seu rastro de matança.

“Era o bicho-papão?”, pergunta a adolescente Laurie reduzida a uma percepção de mundo infantil logo após todas as explicações possíveis serem dissipadas pelo medo, logo após o doutor feito por Donald Pleasance aparentemente abater Michael. Ele, falando pelo espectador tão abalado por buscar contexto, verossimilhança, razão ou diabo que seja, confirma, “de fato, era sim”. E quando vão olhar pela janela de onde Myers caiu após levar uma saraiva de tiros, surpresa. Não há ninguém mais lá. Se tratando do bicho-papão, não dava para esperar mais nada.

5/5

Ficha Técnica: Halloween – A Noite do Terror (Halloween) – 1978, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Donald Pleasance, Jamie Lee Curtis, Nancy Kyes, P.J. Soles, Kyle Richards

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