– por Luiz Carlos Freitas

John Carpenter é um dos mais legítimos representantes do “Cinema de Autor”. Sua obra, mesmo quando mais falha, ainda apresenta um notado vigor em desconstruir as instituições que regem nossa sociedade. Da forma mais impensada possível, seja com demônios, alienígenas, assassinos mascarados ou até mesmo com uma “fumaça” (!??!), ele consegue despedaçar e estapear a cara de nossas convenções e valores (e sempre aliando isso ao mais puro entretenimento e apuro estético).

Sua obra, de tão poderosa, nos torna críveis todas as situações apresentadas em tela e, se não nos convence, nos deixa bem mais próximos de seus ideais quase sempre anarquistas que muitos outros ditos “cineastas políticos”: o bem e o mal estão mais próximos e dependentes do que geralmente se pode supor.

Em Vampiros, lançado em 1998, logo após Fuga de Los Angeles (igualmente rico em conteúdo – porém, um fracasso completo nos demais aspectos), James Woods é Jack Crow, o líder de um grupo de caçadores de vampiros que atua em sigilo a mando da Igreja Católica. Uma noite, após eliminarem um grupo de vampiros escondidos em um “ninho” (como são chamados os esconderijos onde os monstros se escondem da luz durante o dia), resolvem se reunir com algumas prostitutas em um motel para comemorar o feito e são massacrados de imediato pelo líder vampiro, a quem mais tarde descobrirão se tratar de Jan Valek (Tomas Ian Griffith – lembram dele como o inescrupuloso dono da academia de luta em Karate Kid  III?) o primeiro vampiro de que se tem notícia (o mais poderoso de todos – e, ironicamente, um ex-padre), restando apenas Crow, seu parceiro Anthony Montoya (Daniel Baldwin) e Katrina (Sheryl Lee), uma prostituta que é mordida por Valek e é levada por eles por esta adquirir laços telepáticos com o vampiro que podem facilitar sua localização. O plano  do vilão: encontrar a “Cruz Negra” que,  segundo a lenda, o conceberia o poder de caminhar à luz do sol (o que faltava pra tornar a raça vampira completamente invencível).

A partir daí, Carpenter arregaça com um dos maiores (e mais maculados) pilares dessas ditas convenções: a Igreja. Tá, ok, esse nem é o foco principal do filme, mas é o ponto central de uma das reviravoltas mais escrotas da trama próximo ao final (mesmo que relativamente previsível). Já no começo, vemos um padre pertencente ao grupo de caçadores fumando enquanto assiste ao massacre dos chupa-sangue e, logo após, bebendo e “se divertindo” com as prostitutas no motel pouco antes da chacina.

Este é substituído por Adam Guiteau (Tim Guinee), jovem padre completamente envolto por seus princípios e pela fé (acima de tudo), outro personagem importante nessa proposta, uma vez que do meio para o fim, questiona todas aquelas verdades em que acreditou até então. Esse auto-questionamento é outra constante na filmografia do Carpenter, a de que nada ao nosso redor está completamente puro, e que adotar medidas mais drásticas que o levem a transcender a barreira da proximidade do campo do “mal” ao ponto de tornar-se uma ferramenta dele, é mais que uma escolha, é uma necessidade.

Assim como McReady com uma granada pronto para explodir seus companheiros (e a si próprio) em O Enigma do Outro Mundo, John Nada disparando a esmo dentro de um banco lotado contra os alienígenas sem se preocupar em quantos “humanos” poderia atingir em Eles Vivem ou o padre Loomis que aprisiona a jovem Susan no Inferno (e não é eufemismo) para salvar a humanidade em Príncipe das Sombras, Adam empunha armas com sem receios e mata com total tranqüilidade e, ainda mais, ajuda a derrubar essas convenções (um exemplo dessa mudança está num diálogo não menos que genial envolvendo “assassinatos” e “ereções”).

Do ponto de vista do protagonista, podemos identificar grande influência do Western, outra característica da obra do diretor, seguidor declarado de Howard Hawks. Crow segue solitário, averso aos valores tradicionais, mas firmemente apoiado em seu “código” de moral (chega a pôr em risco tudo pelo qual lutou em consideração a um amigo) ao mesmo tempo que carrega um altruísmo enorme consigo (o “Vamos, padre, meu saco está em brasa!” proferido próximo ao final exemplifica bem isso).

Há de se reconhecer também o mérito de Griffith, que apesar de suas falas quase totalmente monossilábicas, possui notada imponência e, ajudado, claro, pela equipe de maquiagem liderada por Enid Arias, empresta uma força visceral ao demônio Valek. Além disso, há uma desconstrução (Carpenter adora isso) da imagem do vampirismo no cinema, onde os ares romantizados descritos por Anne Rice e Bram Stoker dão lugar à perversão e sede de sangue, a mais pura e animalesca necessidade de morte.

Entretanto, o filme tem problemas com o ritmo (ou melhor, falta dele). A fotografia, apesar de nada excepcional, é lindona e o gore é bem feito. Mas nada próximo aos grandes trabalhos do diretor (apesar de termos direito a uma câmera subjetiva em dado momento – modesta, mas suficiente para fazer os mais “tietes” vibrarem). O clímax final é bem morno e, não fossem as expressões realmente assustadoras de Griffith e o carisma de um James Woods cínico em cena como o Kurt Russel jamais conseguiu, os bocejos seriam inevitáveis.

Mas nada que comprometa o todo. Tudo bem, não tem nem de longe o mesmo charme dos grandes clássicos do diretor e, realmente, chega a ser um tanto quanto “esquecível” após o término. Mas ainda é um filme do John Carpenter. Então não espere por menos que diversão e um pouco de reflexão (mesmo que rasteira) por 90 minutos.

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3/5

Vampiros de John Carpenter (John Carpenter’s Vampires), 1998, EUA – Dir.: John  Carpenter – Elenco: James Woods, Daniel Baldwin, Sheryl Lee, Thomas Ian Griffith, Maximilian Schell, Tim Guinee, Mark Boone Junior, Gregory Sierra, Cary-Hiroyuki Tagawa, Thomas Rosales, Henry Kingi, David Rowden, Clarke Coleman, Mark Sivertsen, John Furlong

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