dark star 3

– por Bernardo Brum

Uma nave cruza o espaço atrás de planetas considerados instáveis, ou seja, que podem sair de suas órbitas sem aviso e causarem um grande estrago. Os astronautas à bordo viajam há anos dentro da nave, a ponto de esquecerem os próprios primeiros nomes, já que só chamam uns aos outros pelo sobrenome. Agem quase mecanicamente operando a nave, como se tivessem sido absorvidos pela máquina. E por aí vai… Seria um continuação de 2001: Uma Odisséia no Espaço? Ledo engano. Na verdade, é o primeiro longa-metragem de John Carpenter, Dark Star.

Projeto transformado em longa em parceria com o roteirista (e também ator no filme) Dan O’ Bannon, Dark Star é uma comédia hippie ácida e irônica, repleta de brincadeiras, piadas e ironias por cada milímetro da película. Carpenter pega os ambientes estéreis dos filmes de Kubrick, junta com maconheiros low rider estilo Cheech e Chong e tira daí uma comédia ainda irregular em matéria de ritmo, mas com piadas tão inspiradas que ajudam a manter o interesse. O próprio cartaz do filme já dava uma prévia do mesmo, chamando o filme de “the spaced out oddissey” (expressão americana que, obviamente, indica um estado de consciência induzido pelo cigarro que passarinho não fuma).

Cenas envolvendo um alien muito picaretamente construído pela equipe técnica (na verdade, uma daquelas bolonas de praia pintada com bolinhas e com pés grudados em sua parte inferior) que acaba por deixar o astronauta feito por O’ Bannon preso em um elevador que toca o Barbeiro de Sevilha na altura máxima, o vídeo-diário que censura automaticamente quaisquer expressões sujas utilizadas pelos astronautas, uma discussão existencialista com uma bomba filósofa e um clímax totalmente absurdo com direito a surfe no espaço já se tornaram eternas para qualquer um que tenha assistido o primeiro dos clássicos cult do diretor. Fora que mostra aqui também uma de suas primeiras composições para seus filmes: a excelente e bem humorada canção country Benson, Arizona, que tem um refrão absolutamente pegajoso e viciante.

A crítica social de Carpenter, dessa vez, com um pouquinho das screwball comedies de Hawks (só que elevadas a um nível muito, muito politicamente incorreto) segue um pouco a idéia de Stanley Kubrick, dos homens esquecerem suas próprias identidades, agirem como máquinas, coisa e tal, mas ao mesmo tempo usa uma idéia também utilizada por Robert Altman no clássico MASH: frente a um horror imensurável (no caso de Dark Star, o vazio), o humor surge como a única alternativa frente ao “imperalismo-colonialismo” sob o qual os personagens foram impiedosamente subjugados.

Claro que, semiologia à parte, o filme tem muito mais a oferecer do que essa visão pessimista da humanidade: é visível a falta de orçamento, refletida em efeitos especiais muito ridículos e o clima fake, contornados com as boas idéias de O’ Bannon e um Carpenter que desde muito cedo já demonstrava talento por trás das câmeras, ao decupar suas câmeras estáticas com grande criatividade e boa compreensão de espaço. Recomendado para todos os hippies que ainda não desistiram da causa, doentes por Carpenter e os fanáticos por filmes de baixo orçamento. E os chatos de plantão que dirão que o filme é ruim por causa da carismática bola de praia, que vão discutir fenomenologia com bombas nucleares!

3/5

Dark Star – 1974, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Dan O’ Bannon, Brian Narelle, Cal Kuniholm, Dre Pahich

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