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–   por Luiz Carlos Freitas

Conhecido mundialmente (mesmo que em menor escala) pela trilogia Era Uma Vez na China (estrelada por Jet Li) e outros trabalhos menores, o cineasta Tsui Hark promoveu uma verdadeira revolução ao trazer todo o glamour das famosas matinês americanas ao cinema de entretenimento oriental. Seus trabalhos misturavam elementos do folclore de seu povo à breguice dos grandes heróis americanos das décadas de 40 e 50.

Bem, por essas tantas você já deve ter relido o título da crítica pelo menos umas três vezes para ter certeza de que não estava lendo sobre o filme errado. Mas sim, esse texto é sobre Os Aventureiros do Bairro Proibido, outra grande pérola dos 80’s dirigida pelo mestre John Carpenter (e que não teve nenhuma participação – pelo menos direta – de Tsui Hark na produção). Mas por que diabos então – você de estar se perguntando – falar desse chinês?

Bem, à época, o filme foi um fracasso retumbante nas bilheterias (outro pra lista do tio John) e isso devemos agradecer, em boa parte, à sempre tão contundente (leia-se “burra”) crítica especializada que promoveu um verdadeiro massacre ao longa colocando-o como um “arremedo muito mal feito do Indiana Jones”. E o que os críticos não sabiam (ou não quiseram citar) é que a obra do Carpenter tinha pouco ou quase nada voltado ao personagem criado pelo Spielberg. Suas referências foram quase totalmente chupinhadas do trabalho do chinês, das lutas entre gangues rivais, deuses-demônios com poderes fenomenais lançando raios coloridos, monstros horrendos, alguns sustos e muita porrada (ah, sim, e altas doses de humor negro).

No entanto, apesar desse “grosso”, o que dá o verdadeiro toque de brilhantismo à obra é a sempre presente veia autoral de John Carpenter. As atmosferas estão sufocantes como nunca (vide as cenas dos “Salões dos Infernos Chineses”), as forças antágonas são perfeitamente delineadas e de forma extremamente aterradora (o vilão Lo Pan – vivido por James Hong –  apesar de seus momentos de alívio cômico, é um dos mais vis e diabólicos de sua filmografia) e, como não poderia deixar de ser, sua admiração pelo gênio Howard Hawks mais uma vez se faz presente, nesta pelo protagonista Jack Burton (Kurt Russel, ator fetiche de Carpenter), o herói completamente desajeitado que, tal qual John Wayne em Rio Bravo, acaba sendo incumbido de salvar o mundo das forças do mal em uma batalha da qual ele evitara a todo o custo participar.

Agora pegue esses elementos, some a uma parte técnica muitíssimo bem trabalhada (não fossem os figurinos oitentistas e a trilha tubular carregada de sintetizadores composta por Carpenter, o filme passaria tranquilo por um mais recente – só que com efeitos bem mais “agradáveis” que os já tão irritantes CGI’s), inclua uma boa dose de picaretagem (a batalha bem “vídeo-game” entre Lo Pan e Egg Shen – Victor Wong – é molecagem das melhores), envolva tudo com o clima de nostalgia das inúmeras reprises nas tardes da Globo e acrescente antes do título original o “John Carpenter’s” e tenha um dos melhores filmes de aventura da década de 80 e – por que não? – da história do cinema que, sem sombra de dúvidas, não fica devendo em nada ao Dr. Jones (talvez à crítica especializada – mas dela nunca se deve esperar muita coisa mesmo).

5/5

Os Aventureiros do Bairro Proibido (Big Trouble in Little China) 1986, EUA – Dir.: John Carpenter – Elenco: Kurt Russell, Kim Cattrall, Dennis Dun, James Hong, Victor Wong , Kate Burton, Donald Li, Carter Wong, Peter Kwong , James Pax, Suzee Pai, Chao Li Chi, Jeff Imada, Rummel Mor, Craig Ng

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