memoirs of an invisible man

– por Bernardo Brum

Caso fosse anterior ao clássico Eles Vivem, Memórias de um Homem Invisível bem que poderia ser considerado uma espécia de rascunho da obra. Está tudo lá: o governo podre e corrupto, a sociedade decadente, os elementos de ficção científica surgidos repentinamente etc., tudo mergulhado num ambiente de muita cafonice, despretensão e, principalmente, dissimulada inocência que Carpenter também imprimiu nos filmes dos aliens infiltrados.

Apesar de não dar pra levar muito a sério a idéia de um executivo yuppie apaixonado por uma loira maravilhosa (Daryl Hannah! Daryl Hannah! Daryl Hannah!) que certo dia sofre um acidente com uma inovação científica qualquer e fica invisível por intermédio disso, logo passando a ser perseguido por federais inescrupulosos, Carpenter explora isso com riqueza de detalhes e com uma abordagem popularesca infalível. É sério: o esquema é tão Cinema em Casa que qualquer que assistir os primeiros cinco ou dez já faz assistir o resto com muita boa vontade.

Mas claro, como bom artesão que é, John Carpenter colocou por todos os lados suas pequenas obsessões. Assim, a história do homem invisível apaixonado pela loira revela que de inocente não tem nada. Fala muito dos principais temas que Carpenter sempre colocou em muitos dos seus grandes filmes, como Dark Star, Fuga de NY, Eles Vivem, O Enigma do Outro Mundo, por aí vai: a liberdade, a opressão do homem pela máquina, a conscientização etc. Quando o yuppie feito por Chevy Chase passa a ser perseguido por policiais gananciosos e inescrupulosos, cercado de gente amedrontada e incapaz (até os homens de ciência), e vê que se decidir jogar pelo lado do sistema não vai ser nada além de um peão no jogo de interesses da política, que essa obra cheia de cenas engraçadas e também sofisticadas visualmente (Daryl Hannah transando com o ar, os pulmões que só aparecem quando o Chevy dá um trago no cigarro, o jogo da edição entre a visão do expectador, do protagonista e de seus amigos/antagonistas) revela-se como um pequeno porém muito arquitetado comentário político – um homem vazio, cheio de máscaras, alguém que só era estatística, massa de manobra, emocionalmente apático e tudo o mais só consegue agir naturalmente, seguir seus próprios interesses, se apaixonar e tal justamente quando o seu corpo desaparece. É como o que acontece com John Nada em Eles Vivem: para ser humano dignamente, ele terá que se tornar uma aberração, um marginal, um pária etc.

Não é grande coisa, é até um filme menor da carreira cheio de grandes filmes de John Carpenter, mas o talento do cara continua afiadíssimo e sua direção tem muita força e ritmo que ganha mais nos pequenos detalhes do que na pretensão. Conseguir travestir ficção científica amarga de comédia despretensiosa de pequeno estúdio não é pra qualquer um, definitivamente. O espírito libertário e bagunceiro de Carpenter, autêntico cineasta dos anos setenta que continua incansável em suas temáticas há mais de trina anos, é o que move para a frente – e com muita força – esse filme. E também serve pra descobrir que só mesmo sendo invisível que alguém feio feito o Chevy Chase conseguiria algo com a Daryl Hannah…

3/5

Ficha Técnica: Memórias de Um Homem Invisível (Memoirs of an Invisible Man) – 1992, EUA. Dir: John Carpenter. Elenco: Chevy Chase, Daryl Hannah, Sam Neill, Michael McKean, Stephen Tobolowsky, Jim Norton, Pat Skipper, Paul Perri, Richard Epcar, Steven Barr

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