prince

– por Luiz Carlos Freitas

Em 1986 John Carpenter amargara um estrondo fracasso de bilheteria com seu Os Aventureiros do Bairro Proibido. Sem muita credibilidade junto aos grandes estúdios, assina contrato com uma pequena produtora de telefilmes para produzir alguns trabalhos de baixo orçamento para (como dizem alguns) “pagar as contas”. Se por um lado isso parece um problema, por outro é notada que essa nova “fase” em sua carreira o trouxe uma total liberdade criativa que há um bom tempo já não se via em seu trabalho.

O primeiro desses filmes foi o seu Príncipe das Sombras, lançado em 1987. Carpenter dribla os poucos recursos e, indo além, faz até uso deles de forma proveitosa, contando a história de uma grande ameaça (que pode devastar o mundo como um todo) sob a ótica de um pequeno grupo de indivíduos cercado pelo mal por todos os lados.

Na trama, o padre Loomis (Donald Pleasence em um papel-homenagem ao Dr. Loomis, vivido por ele mesmo em Halloween – A Noite do Terror) é chamado à uma igreja para iniciar as investigações a respeito de um misterioso líquido verde encontrado em seu subterrâneo que, segundo alguns escritos, era protegido por uma seita secreta (a “Irmandade do Sono”) há mais de 2000 anos. Chegando lá, junta-se com o professor Birack (Victor Wong), renomado físico que recruta seus melhores alunos para uma série de análises de emergência da substância.

O interessante é notar como John Carpenter consegue transformar isso numa verdadeira salada diabólica. A trama rápido converge para o que esperamos de um filme da linha clássica do diretor, com mortes, suspense crescente, atmosfera sufocante e claustrofóbica, além de altas doses de reflexão existencial e sobre a sociedade, com direito até à viagem no tempo e, é claro, muitos sustos.

O ceticismo e a crença estão lá, com seus extremos bem representados por Birack e Loomis, ambos presenciando o mesmo mal, mas agarrando-se em suas “lógicas” ao máximo. E no meio disso, os jovens alunos que, vez por outra, acreditam na ciência e nas idéias “loucas” do padre (representam a possibilidade de não se terem escolhas definitivas ante uma força poderosa e ameaçadora – e, principalmente, desconhecida).

Um ponto importante diz respeito à origem do mal visto em tela. Carpenter, como de costume, não nos joga explicações de cara. Os acontecimentos vão transcorrendo e aos poucos as peças vão se juntando até culminar numa solução bem óbvia: aquele líquido misterioso seria responsável por abrir um portal para trazer o próprio Satanás à vida na Terra. Todavia, essa solução perde toda a sua obviedade nos três minutos finais (sério, todos aqueles conceitos construídos ao longo da projeção caem por terra – repensamos se realmente era aquilo que achávamos).

A atmosfera é uma das melhores já criadas pelo diretor. Aliás, o curioso é que o filme é todo um grande prólogo. A trilha do começo e a edição de imagens dão uma sensação de “corrida” no tempo, como se sempre houvesse fatos novos à espera. A trilha persiste, sendo exatamente a mesma do início ao fim. A sensação de que algo está para acontecer, de que o filme finalmente irá “começar” nos acompanha até os momentos finas (vide o sonho-presságio que nunca é completamente revelado – e quando o é, já estava totalmente mudado). Alguns personagens marcam presença por detalhes simples, como o “negão” de risada macabra ou a jovem Kelly (Susan Blanchard) que, quando possuída pelas forças do mal, protagoniza um dos momentos mais aterrorizantes e tensos da filmografia do Carpenter.

Entretanto, Príncipe das Sombras tem problemas nítidos com seu orçamento. Alguns momentos bem “toscos” (a “mão do demônio” – de papel machê ou plástico, não sei bem ainda – realmente me fez rir) e a maquiagem dos “zumbis”, porém estes não chegam a interferir muito no resultado final. Talvez o grande problema nem sejam as restrições orçamentárias, mas o próprio roteiro da obra, que em alguns momentos próximos ao final beira o didatismo com algumas soluções e saídas bem rápidas.

Mas isso não enfraquece a proposta do longa. Temos aqui um dos trabalhos mais ricos de toda a sua filmografia, onde a religião é apenas um pretexto para se discutir sobre a fé do homem em si próprio e na humanidade, o ceticismo e o apego aos nossos conceitos e valores (carregados de forma inconsciente, até) representados tanto pelo cientista que se recusa à aceitar que seu ceticismo pode matá-lo quanto pelo padre que se esconde em um quarto cercado por mortos-vivos e, aos prantos, questiona se Deus realmente estaria ali.

Ao fim das contas, Príncipe das Sombras foi muito bem nas bilheterias, apurando ao todo só nos EUA quase cinco vezes o valor investido. Apesar disso, a crítica (que nunca foi das mais tolerantes ao diretor) caiu em cima, massacrando sua obra. Todavia, o tempo o fez certa justiça. Claro, nem todos seus trabalhos têm a visibilidade merecida, como é o caso deste, relegado ao segundo escalão de sua filmografia, mas isso também é questão de tempo.

PS.: Detalhe para uma participação especialíssima do roqueiro Alice Cooper, interpretando o líder da gangue de mendigos-zumbi (e é incrível como ele fica ainda mais assustador sem maquiagem).
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4/5

Príncipe das Sombras (Prince of Darkness) – 1987, EUA – Dir.: John Carpenter – Elenco: Donald Pleasence, Jameson Parker, Victor Wong, Lisa Blount, Dennis Dun, Susan Blanchard, Anne Marie Howard, Ann Yen, Ken Wright, Dirk Blocker, Jessie Lawrence Ferguson, Peter Jason, Robert Grasmere, Alice Cooper

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