– por Guilherme Bakunin

John Carpenter declarou que quando instalou em outdoors a decoração de subliminares de Eles Vivem com dizeres como “Obedeça” e “Case-se e reproduza-se”, as pessoas realmente não notaram muito, um fato que acaba sendo meio que mais assustador que o próprio filme, que não é tão assustador assim. Na verdade, apesar da premissa ideológica forte, não é um trabalho tão sério. Carpenter utiliza a invasão e imersão alienígena na terra como um palco de uma ação conspiratória eficiente, simples e bem conduzida.

John Nada é um cara recém-saído de algum lugar, que vai para São Francisco à procura de algum emprego. Com imensas dificuldades de achar algo através de uma agência, acaba indo parar no trabalho marginal da construção civil. Lá, conhece Frank, um homem simples e de caráter, que leva-o para o acampamento onde vive. É a partir desse cenário, bastante real e convencional, que Carpenter começa a dar os primeiros passos para a revolução planetária que viria a seguir.

É singelo perceber o esmero de Carpenter pelas pessoas simples. É a partir de um acampamento extremamente pobre que o planeta inteiro se salvaria da dominação extraterrestre (a qual nós não iremos perceber grandes motivações), e isso não é por acaso. A forma pela qual o segredo é revelado através de um acessório comum denota uma paixão do cineasta pelo produto às massas, pelas multidões.

Não é por menos que a partir de uma trama lenta e existencialista, engatilhe-se um filme de ação, com tiroteiros e perseguições que pouco contribuem para a carga psicológica do filme, mas que faz parte, num conjunto, de uma obra-prima que une o convencional e o original, o individual e o coletivo num único trabalho. Fazer seu filme mais social ir para o pouco elaborado, é a forma encontrada por Carpenter para se comunicar com nós, pessoas simples, comuns, meros trabalhadores, tão, humanos e tão frágeis.

Eles Vivem é um filme clássico, meio glorificado hoje em dia por ser bem divertido, bem sintético e bem filmado, mas que é, antes de qualquer coisa, uma maneira de glorificar o homem de verdade, puro e modesto. Não que o diretor faça um filme simplesmente burro, idiota, nem mesmo um filme raso. É simplesmente um traçado existencialista e individual claro, e um enredo imaculado de ETs, armas e batalhas. A adição desses dois elementos é o que dá o resultado que, aparentemente, visionava Carpenter: colocar acima de tudo e de todos, no topo do mundo, um cidadão singelo, voltar o olhar para ele e exaltá-lo, como salvador, como algo que dá continuidade, não apenas durante invasões de marcianos, mas a cada momento.

5/5

Ficha Técnica: Eles Vivem (They Live) – 1988, EUA. Dir: John Carpenter. Elenco: Roddy Piper, Keith David, Meg Foster.

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