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– por Luiz Carlos Freitas

John Carpenter poucas vezes em sua (relativamente) curta filmografia, à exceção de Dark Star e Assalto a 13ª DP (filmes de início de carreira que nem contam muito), se arriscou fora do estilo que o consagrou, o horror. E em nenhuma delas sua mudança foi bem recebida por parte da crítica e do público. Foi assim com o até divertido Memórias de um Homem Invisível e esse seu Starman, de 1984.

A trama é realmente bem diferente do que estamos acostumados a ver em seus filmes. Após fazer contato com uma sonda espacial americana, alienígena resolve vir à Terra pra fazer contato pacífico com os humanos. No entanto, sua nave é abatida logo após sua entrada em nossa atmosfera. Sem meio de transporte e por não possuir uma forma física definida, ele procura refúgio em uma cabana nas proximidades de onde havia caído. Lá depara-se com vários rolos de filme e álbuns de fotografia. Num deles, encontra uma mecha de cabelo de Scott, homem há pouco falecido, e que era guardada por Jenny Hayden (Karen Allen), sua esposa que ainda se recuperava do trauma da perda, e acaba “copiando” seu corpo.

Agora, enquanto “Scott” (vivido por Jeff Bridges), ele precisa da ajuda de Jenny para se locomover ao longo de três estados para recuperar sua nave e voltar ao seu planeta, ou então acabaria não resistindo e morrendo. Durante essa jornada, ele irá chocar-se com alguns costumes humanos e ter de conviver com o medo e a fascinação crescente de Jenny (que via nele seu grande amor recém-perdido).

É, realmente não tem como imaginar que esse seja o resumo de um filme do grande “Master of Horror” John Carpenter (Spielberg seria o primeiro nome que me viria à cabeça). Porém, mesmo fora de seu campo, Carpenter nos brinda com um trabalho tão seu quanto seus maiores e mais conhecidos clássicos.

Essa jornada pelo país em busca da nave perdida de Scott é o que Hitchcock chamou de McGuffin. Assim como a misteriosa maleta que desencadeia quase duas horas de tiros e perseguições em Ronin a valise com os 30 mil dólares que faz com que Janet Leigh se esconda no Motel Bates em Psicose ou os alienígenas que levam Mel Gibson a repensar sua fé em Sinais, a viagem de Scott e Jenny é apenas um mero ponto de partida (pra não dizer “pretexto”) para que o diretor possa explorar de forma magistral um tema que sempre permeou sua obra: o homem e sua sede por manter-se sempre no topo (esta quase sempre auto-destrutiva).

Ao acompanharmos a dupla de protagonistas ser perseguida impiedosamente pela polícia e até pelo exército ao longo do país, vemos o contraste entre as motivações e valores de “caça” e “caçador”. Scott representa a pureza (coisas que para nós são simples, como falar um palavrão, para ele são mágicas; sua virtude o coloca como o “elo mais fraco” de toda uma cadeia social que tende a estar sempre submetida à ponta superior, esta representada também por um conflito: de um lado, Mark Shermin (Charles Martin Smith), o cientista que via no contato com o alienígena incomensuráveis trocas de trocas de conhecimento, do outro o general George Fox (Richard Jaeckel) que pretendia eliminar o alienígena em prol da “segurança nacional”.

Não é preciso pensar muito para se ter idéia do quecada personagem dali representava. A crítica às grandes instituições detentoras do controle do poder e influenciadoras da sociedade (tema este que seria revisto poucos anos após em Eles Vivem) está presente o tempo inteiro, em cada ação dos que representam o governo e demais órgãos que tentam assumir o controle da situação, ficando cada vez mais forte e evidente contrastando com as cenas do aprendizado do Starman durante seu curso rumo à sua nave.

Além disso, vale destacar a estranha relação de dependência que se estabelece entre Starman e Jaynne. Um amor impossível de todas as formas possíveis, pois se por um lado ele era a representação física perfeita de seu falecido marido, era evidente que ainda assim não era ele. E mesmo que seu sentimento fosse além desse “pequeno detalhe” e algo surgisse entre os dois, ela ainda tinha de lidar com a certeza de que ele não sobreviveria caso ficasse na Terra com ela. Tudo isso a deixava extremamente confusa, o que fica evidente por suas expressões de medo (até mesmo nos momentos mais felizes) ao longo do filme. Em contrapartida, Starman continuava sorrindo mesmo nas piores situações.

Contudo, não podemos deixar de lado o fato de que o Carpenter sempre foi um esteta. Seus filmes, além de riquíssimos em conteúdo e na construção de atmosferas, sempre foram visualmente magníficos. Apesar de não ter nenhum momento memorável ao ponto de figurar em alguma lista de melhores de sua carreira, possui algumas cenas lindas, como todo o prólogo inicial no espaço, a queda da nave e o primeiro contato de Starman com Jaynne.

Aliás, a sequência do “nascimento” é no mínimo impressionante, tamanho realismo e força do conjunto de imagens em sequência. A vista de Jaynne no feto monstruoso ao chão que aos poucos evolui a um garoto e, por fim, ao “Scott” adulto é quase um “Ei, esse ainda é um filme do John Carpenter, vejam que coisa bizarra!”. Uma cena grotesca que, após poucos segundos, retorna à suavidade visual empregada ao resto da obra.

Carpenter finaliza (como quase sempre) em aberto, deixando a reflexão sugerida, o que só confere ainda mais força às escolhas do roteiro. As partes se reafirmam, o “bem e o mal” estão lá, mas não completamente definidos, delimitados, não tão distantes entre si. Porém, por mais pessimista que possa parecer, há um momento importante onde fica evidente que ainda resta alguma esperança.

Claro, não veja Starman esperando um filme grandioso e sufocante como os grandes clássicos de sua carreira. O ritmo, apesar de sustentado até o fim, é lento em boa parte do longa, além de, como já dito, não contar com sequências memoráveis. No entanto, ainda é um filme do John Carpenter e que segue toda a sua cartilha (e à altura).

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4/5

Starman – O Homem das Estrelas (Starman) 1984, EUA – Dir.: John Carpenter – Elenco: Jeff Bridges, Karen Allen, Charles Martin Smith, Richard Jaeckel, Robert Phalen, Tony Edwards, John Walter Davis, Ted White, Dirk Blocker, M.C. Gainey, Sean Faro, Buck Flower, Russ Benning, Ralph Cosham, David Wells