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– por Bernardo Brum

Uma das maiores bênçãos do mundo, creio eu, é a incapacidade da mente humana em correlacionar todos os seus conhecimentos“.

– H. P. Lovecraft, O Chamado de Cthulhu.

Discutivelmente a maior obra-prima de John Carpenter,  O Enigma de Outro Mundo é um dos fillmes mais aterrorizantes, viscerais e tensos já feitos. Refilmagem de um clássico sci-fi dos anos cinqüenta, O Monstro do Ártico (aliás, uma produção do seu mestre maior Howard Hawks), o diretor integrou o seleto grupo daqueles autores que transformaram uma produção bobinha e quase ingênua, porém muito divertida, em uma obra que, por cada fotograma, se encontram as digitais da sua proposta estética única – paralelo este encontrado em A Mosca, de David Cronenberg, por sua vez uma refilmagem de outro clássico, A Mosca da Cabeça Branca.

Tido como dois auges do cinema gore dos anos oitenta, é interessante notar como toda a violência hipergráfica se aproxima mais do trabalho do canadense que seus trabalhos anteriores, como em Halloween – A Noite do Terror, que mesclava a violência  esteticamente riquíssima de filmes de gênero italianos como Prelúdio Para Matar de Dario Argento e principalmente Banho de Sangue de Mario Bava com o suspense classudo de Psicose, de Alfred Hitchcock. Aqui, como nos filmes de Cronenberg, a ameaça não interessa majoritariamente, apesar dela ser um fator importantíssimo e principal dentro do trabalho. O interesse de Carpenter, desta feita, é ir fundo na mente dos personagens, estudar o efeito de absurdas e enlouquecedoras situações limite em pessoas isoladas no meio do nada e, com isso, arrebentar os nervos do espectador de uma forma calculista e quase sádica.

Uma base militar americana na Antártida, certo dia, intercepta um cão branco correndo de dois soldados estrangeiros que o caça ensadecidamente. O cão logo é posto no canil junto com os outros animais sem que os oficiais entendam o que diabos era aquilo. Pouco a pouco, irão ter contato com uma descoberta terrível: aquele cachorro aparentemente normal, na verdade, é uma forma de vida alienígena, que ao menor contato com outro ser vivo é capaz de dominá-lo, assimilá-lo e substituí-lo por uma réplica perfeita. A partir daí, os doze homens isolados em meio à neve, incluindo aí o protagonista R. J. MacReady (o ator-fetiche de Carpenter, Kurt Russell, que atuou em cinco filme sob a sua batuta), irão enfrentar toda sorte de perseguição  e brutalidades imagináveis.

Diretor plenamente consciente do seu domínio narrativo, John Carpenter pouco explica além do essencial sobre o alienígena – e o pouco que ele informa já é o suficiente para instaurar uma sensação de inferno poucas vezes igualadas na história do cinema. São apenas homens comuns, que receberam treinamento militar, tendo que esgotar o pouco resquício de sanidade que ainda lhes resta para enfrentar uma ameaça bizarra, inaceitável e desconhecida. Pouco a pouco, tal linha de raciocínio lógica logo vai pro ralo, quando as fraquezas humanas são a amardilha perfeita para ceifar suas vidas. Não é à toa que, com essa exploração de “pessoas comuns e simplórias contra algo muito maior e ameaçador” faça valer o comentário um pouco maldoso, porém nem um pouco infundado, de que o filme da vida de Carpenter, inspiração para 90% da sua carreira, seria Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks, filme que um xerife, um álcoolatra, um velho manco e resmungão e um jovem afobado são a única guarda contra uma gangue de pistoleiros assassinos.

E aí que chegamos em outro ponto fundamental de todos os filmes de John Carpenter, herdados do seu mestre Hawks: os interiores. Quase nada se passa em tomadas externas, e todo pega pra capar é exposto de forma apertada, labírintica, tortuosa e claustrofóbica pelo diretor. À medida que a ameaça cresce, os lugares para onde se possa correr e rezar pela vida são cada vez menores. Mas bem longe da comicidade que por vezes surge no seu amado faroeste, Carpenter concentra tudo em uma tensa e por vezes insuportável espera pela violência. Como nos contos do supracitado Lovecraft, a “causa”, o “por que” e o “como” são os menos importantes, e por vezes tornam-se até esquecíveis. Tudo o que os personagens sabem, e que o espectador também sabe, é que estão aterrorizados, emocionalmente em frangalhos e que a qualquer momento podem ter sua carne despeçada.

E tal terror construído por Carpenter mostra-se algo tão alienígena à mente humana que lá pelo meio do filme, as tais fraquezas da própria, que na maioria das vezes quebra se é sujeitada a pressão psicológica extrema, vira um jogo de acusação, ameaça, perseguição, suicídio e paranóia. Tudo pode acontecer, e nos momentos que nada acontece, onde poderia ocorrer algum tipo de, digamos, alívio emocional, são apenas mais angustiantes.

Talvez uma das cenas mais desesperadoras que se tem notícia, a cena do teste de sangue, chega a ser tão ou mais apavorante que o desfecho do filme. Esse é o verdadeiro clímax, onde todos não passam de um amontoado de tecidos e fluidos corporais a serem examinados um a um e, quando descobertos, combatidos até a morte, sabe-se lá de quem. Nesse momento não faz mais diferença as etnias, a nacionalidade, o número de informações possuídas pelo cérebro, nada. O que importa é apenas a carne, e o que está sendo feito dela.

Relegado por anos ao segundo escalão cinematográfico, O Enigma de Outro Mundo, na verdade, é cinema do mais alto nível e que muitas produções contemporâneas pouco podem fazer frente. Ao contrário de Steven Spielberg, que com seus E.T. e Contatos Imediatos de Terceiro Grau (entre outras produções que se envolvia), o filme de Carpenter era o divórcio da raça humana com tudo que fosse diferente – tema a ser repetido por Carpenter futuramente, como por exemplo em Eles Vivem. Aqui, a loucura, a xenofobia e, como não podia deixar de ser, o medo, são tão grandes e próximos que chegam a ser palpáveis. E poucas e parcas vezes, depois deste filme, o cinema de gênero iria tão longe outra vez.

5/5

O Enigma do Outro Mundo (The Thing) – 1982, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Kurt Russell, Wilford Brimley, T.K. Carter, David Clennon, Keith David, Richard A. Dysart, Charles Hallahan, Peter Maloney, Richard Masur, Donald Moffat, Joel Polis, Thomas G. Waites

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