[Cobertura do Festival do Rio 2009]

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– por Bernardo Brum

Dos diretores contemporâneos que ainda seguem o modelo classicista de cinema, Campanella segue filme após filme em um dos postos de liderança. Foi assim em O Filho da Noiva e Clube da Lua, e é assim de novo em O Segredo dos Seus Olhos, uma quase obra-prima que esbanja personalidade e sentimento por todos os poros e que figura sem muito esforço mental na minha lista de três melhores filmes de 2009 .

Contando a história de Benjamín Esposito – interpretado pelo genial Ricardo Darín, simplesmente um dos melhores atores vivos – aposentado do Tribunal Penal argentino que, ao começar escrever um romance sobre o caso que mais o perturbou nos seus anos ativo – o estupro seguido de assassinato de uma jovem, no qual o criminoso permanecia intocável por atender interesses de setores corruptos da segurança e da política argentina, este talvez seja o filme mais abertamente político já realizado por Campanella, ao deflagrar corrupção, ineficiência, jogos de interesse e proteção legal de infratores da lei. A história que dá o mote só ganha mais força por se passar no início da década de setenta, um dos períodos mais negros da política do país.

Mas, para variar, novamente a história retratada pelo cineasta é muito mais que isso (assim como Clube da Lua é muito mais que a história de um clube falindo). Poucas vezes, em um filme de conteúdo policial, houve espaço para tanto amor, fracasso, tristeza, humor e desespero, tudo ao mesmo tempo, em um turbilhão de força vital, retratado de forma absolutamente segura e com mão de mestre, em uma sequência mais impressionante que a outra – uma das que ficarão para a posterioridade, sem sombra de dúvida, é quando o diretor começa uma tomada áerea de um campo de futebol lotado, vai descendo em um travelling em zenital, filma um gol, mergulha na multidão e encontra os protagonistas, tudo em um plano só, tão impressionante quanto aquele de Eu Sou Cuba.

A não ser por alguns detalhes mínimos, como a arrastada desnecessária que o filme dá em seu final e a administração não tão satisfatória da alternação entre flashback/presente, dá até para perdoar, ao compreender a proposta do diretor e a viagem puramente emocional que ele quer nos proporcionar, no qual ele choca, ousa, faz graça, arranca lágrimas, flerta com outros gêneros e muito mais e solta um filme tão absolutamente seu que já dá para sacar nos cinco primeiros minutos que se trata de um filme de Campanella. Com Ricardo Darín. Com a gente, lá no meio, chorando com o absurdo da vida, rindo com os pequenos prazeres e se emocionando pra cacete.

4/5

O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos) – 2009, Argentina/Espanha. Dir.: Juan José Campanella. Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino, Guillermo Francella

Festival do Rio 2008

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