rosemarys-baby-mia-farrow-john-cassavetes

– por Murilo C. Ceccone

A adaptação que Polanski fez do livro de Ira Levin (autor de Meninos do Brasil) resultou em um dos melhores filmes de terror psicológico e, certamente, no mais perturbador a que já tive o prazer de assistir (se bem que a palavra “prazer” não é a mais adequada para descrever o sentimento de incômodo que sentimos durante o filme).

Rosemary (Mia Farrow) e Guy (John Cassavetes) formam um jovem casal que acaba de se mudar para um apartamento em Manhattan. Quando o marido, um ator desempregado, começa a envolver-se com os vizinhos – um simpático e aparentemente inofensivo casal de velhinhos formado por Ruth Gordon e Sidney Blackmer – Rosemary percebe-o cada vez mais ausente e fechado, agindo de forma estranha. Após engravidar sob estranhas circunstâncias, começa a desconfiar de um complô que pode pôr em risco a vida de seu bebê.

O filme consegue ser aterrorizante sem mostrar absolutamente nada (exceto por um par de olhos), sem apelar para imagens ou sustos baratos. Tudo é sugerido, nada é mostrado, de forma que o clima de tensão insuportável criado durante o filme, a sensação de claustrofobia, de sufoco, de paranóia, construídos pouco a pouco é que nos deixam tensos e incomodados. Esse é o verdadeiro terror com o qual Polanski nos atinge.

Talvez a única cena que se baseia no uso de imagens em vez de clima/situação/atmosfera é a sequência do sonho/delírio, na noite da concepção, repleta de simbolismos, como Hutch (Maurice Evans) alertando para um perigo iminente.

Mia Farrow faz um ótimo trabalho, representando Rosemary como uma jovem inocente, frágil e indefesa, servindo como uma presa perfeita para os que estão a sua volta, e nos fazendo temer por seu destino. E Polanski conduz a trama de tal forma que nos faz perceber, antes de Rosemary, o que está acontecendo. Tentamos alertá-la, em vão (“Não coma esse mousse, garota!”), e só nos resta acompanhar e sofrer junto.

Um ótimo exemplo de como Polanski nos faz entrar na paranóia da protagonista é a cena em que Rosemary está em uma cabine telefônica, após perceber que até seu médico pode estar envolvido na possível conspiração. Um homem pára de costas na frente da cabine, e pensamos se tratar do Dr. Abraham Sapirstein (Ralph Bellamy), mas na verdade era apenas um cara esperando para usar o telefone. Uma cena digna de um Hitchcock.

Até chegarmos à cena final, – se ainda não viu o filme, pare de ler por aqui – talvez o mais perturbador (de novo esse termo) final de filme já concebido. Ao olhar para o bebê, a expressão de terror no rosto de Rosemary nos dá uma idéia do que não vemos, e Polanski toma uma sábia decisão ao não mostrar o conteúdo do berço, uma vez que apelar para uma imagem repugnante arruinaria toda a proposta do filme. “O que vocês fizeram com ele, seus maníacos? O que fizeram com seus olhos?”. Esse é um desfecho sombrio para um filme que permite várias leituras e interpretações, e que nos deixa com um gosto ruim na boca, mas com a sensação de que acabamos de ter uma aula de cinema.

Obs.: este filme é o segundo da “Trilogia do Apartamento” de Polanski, ao lado de Repulsa ao Sexo (1965) e O Inquilino (1976).

5/5

O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby) – 1968, EUA. Dir.: Roman Polanski. Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans, Ralph Bellamy, Victoria Vetri, Patsy Kelly, Charles Grodin.

Anúncios