oldboy

– por Bernardo Brum

Em seu segundo filme da chamada Trilogia da Vingança, Chan-wook Park ganhou o mundo com Oldboy, filme levemente inspirado num mangá japonês, onde somos apresentados a Oh Dae-Su, um homem comum que é trancafiado num cativeiro por um maníaco no dia do aniversário de sua filha pequena. Durante quinze longos anos, ele não vê a luz do sol, tem a televisão como única companhia, é alimentado como a um prisioneiro de penitenciária, posto a dormir com gás do sono e com figuras misteriosas que sempre o carregam para cortar seus cabelos e costurar os ferimentos que inflige à si mesmo em súbitas explosões de desespero. Então, em um determinado dia, é solto após uma sessão de hipnose, acusado de um homicídio e tem como uma de suas únicas companhias Mido, uma cozinheira tanto exótica quanto depressiva. Então, pouco a pouco, descobre estar preso em um corrida contra o tempo para descobrir quem é o maníaco, quais são suas motivações e que segredos sombrios ele diz possuir.

Combinando a estilização da violência e um trabalho psicológico pesadissimo, Chan-wook realizou um trabalho no mais alto nível de perturbação. A todo momento o diretor arquiteta uma epopéia da violência sem precedentes. Claro, não afirmo isto como se quisesse dizer que nunca existiu Sergio Leone, Sam Peckinpah, Quentin Tarantino ou Takashi Miike, por aí vai. Mas foi concebido um cinema de ficção tão anacrônico que cada referência utilizada aqui e acolá é reconfigurada em uma pura atmosfera de mergulho na loucura onde a história, mesmo que espetacularmente bem escrita e arquitetada, ainda assim é superada pela narrativa implacável filmada com uma sabedoria estética que parecia até então um tantinho esquecida.

Juntos, o diretor e o ator Choi Min-sink promovem um tremendo estudo de personagem constituído nos mínimos detalhes – o início, com câmera na mão, luz natural, aspecto meio documental e coisa do tipo, logo pula pra um clima claustrofóbico e alucinatório de pesadelo que transformam um típico beberrão canalha de qualquer parte do mundo numa figura desgraçada gradativamente. O filme, então, continua passeando pelo clima de mistério e suspense, investindo no meio tortura, escatologia e pancadaria que vai desencavando cada merda que o personagem fez combinando mutilações, artes marciais, música clássica, instrumental e pop (numa trilha sonora elaboradíssima que usa As Quatro Estações de Vivaldi de forma tão impactante quanto a forma que Kubrick utiliza Beethoven em Laranja Mecânica – e falo sério), videogame, linha cronológica fragmentada, humor bizarro e repentino, erotismo e aquele clima exagerado e impensável para nós ocidentais até culminar numa sequência final tão bela e triste que seria digna de um Kurosawa – poderia, claro, dar a sensação do espectador que o diretor está atirando para todos os lados ou então que existem vários filmes dentro de um, mas no resultado final ficou uma obra cinematográfica tão completa que pareceria burrice se o diretor filmasse tudo, do início ao fim, de uma única maneira. E isso que faz Oldboy pulsar firme e visceral a todo momento.

E claro, desobedecendo como sempre as normas caretas, Chan-wook faz o cinema girar ao contrário mais uma vez quando, no ato final, nos impede de ter qualquer catarse diante da violência. Não nos deixa absorvê-la, faz com que tenhamos repulsa, até só restar culpa, arrependimento e sentir todo o gosto amargo e incompleto, e ainda assim, viciante como heroína, da vingança. De ficar emudecido, assim como o personagem.

Cada vez mais me convenço que Godard tinha fumado um baseado estragado ao dizer que o único cineasta atual que vale a pena assistir é o Kiarostami. Mandemos o velho francês (e todos os emburrados, conformados ou desconhecedores afins) assistir Oldboy, portanto.

5/5

Oldboy (올드보이) – 2003, Coréia do Sul. Dir.: Chan-Wook Park. Elenco: Choi-Min Sink, Yu Ji-Tae, Kang Hye-jeong, Yue Jin-seo, Oh Dal-su

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