Zombie2

– por Luiz Carlos Freitas

O filme já começa repentinamente com um homem misterioso atirando na cabeça de um desconhecido envolto em um lençol. Daí, os créditos com o nome do filme aparecem e a cena corta para um belíssimo enquadramento de NY vista de longe, com as (ainda de pé) Torres Gêmeas … Um barco à deriva navegando sem destino e uma música calma, bastante agradável que, em poucos minutos, serviria de contraste ao primeiro momento verdadeiramente nojento do filme e que já nos dá uma breve noção do que está por vir.

Incrível o quanto o Fulci é simplesmente genial por fazer um filme tão grande com tão pouco, afinal o elenco de protagonistas, com exceção do Dr. Menard (Richard Johnson), é de fazer vergonha de tão ruim (e o orçamento que não foi dos melhores). Mas isso é realmente insignificante aqui.

O que interessa mesmo são os demais detalhes de sua obra. A trama é simples e vaga, como de costume no horror italiano (salvo algumas exceções aqui e ali), mas a direção segura é um dos pontos mais fortes do longa, ao lado do apuro estético (outra característica dos filmes de horror italianos – o cinema no resto do mundo nunca usou tão bem as cores em filmes), com destaque à caracterização dos zumbis. Diferente dos de Romero (quer queira ou não, ele é o referencial para esse tipo de análise), que eram apenas pessoas com maquiagem azul ou branca no rosto, estes aqui se mostravam como cadáveres putrefatos. Isso, além de conseguir chocar mais o espectador com cenas bem mais nojentas, enriquecia o filme pela maior possibilidade de variar nas cenas. Em alguns momentos, temos zumbis normais, apenas com maquiagem pálida, outros bem mais ‘estragados’, com vermes nos olhos, alguns eram apenas esqueletos e outros faltando membros do corpo. Tudo feito do modo mais realista possível.

Algumas cenas são antológicas e merecem destaque aqui, como a do morto-vivo lutando contra um tubarão (!!!) no fundo do mar e a mais arrepiante e tensa do filme: a esposa do Dr. Menard (a belíssima Olga Karlatos – que vivera a mãe do contar Prince no musical Purple Rain) tendo seu olho varado por uma farpa de madeira. Outra sequência fantástica, é a dos mortos se erguendo de seus túmulos, em pleno cemitério.

Ademais, é a tradicional correria de sempre, culminando num embate direto na igreja, onde tacam fogo nos mortos (os zumbis caminhando lentamente mesmo com os corpos em chamas ficou lindão). Nem o fato de terem usado o mesmo plano da explosão umas 50 vezes seguidas diminui o momento (na verdade, até pode entrar como mérito, uma vez que demonstra a versatilidade do Fulci diante das limitações ao seu trabalho).

Para completar, o filme passa um contraste belíssimo da floresta agitada e sombria à noite partindo ao mar calmo durante o dia. Os protagonistas ligam o rádio e ouvem as notícias da invasão à NY.

E a cena mais ‘bela’ do filme: os mortos-vivos caminhando lentamente pela Ponte do Brooklin enquanto os carros passam por baixo, ao som da trilha sonora (que música fudida da porra) e o carinha berrando no rádio “Atenção! O perigo é real! Tranquem suas portas e aguardem por.. Hum? O que? Ah, não! Eles entraram! Aaaaaahh ….”.

Fulci, dois anos após, ainda faria aquela que é sua obra-prima definitiva: The Beyond (aqui no Brasil, com o título ridículo de Terror nas Trevas), um filme denso, de atmosfera insana e angustiante, dos mais brilhantes já feitos com na história do horror, fazendo frente até mesmo aos grandes clássicos do Romero (entenda “grandes clássicos” como os dois primeiros ”… Of The Dead”), Argento e Bava (só para citar – novamente – os mais importantes).

Mas é um crime ignorarmos a importância desse que é indiscutivelmente um dos melhores e mais revolucionários filmes de horror já feitos.

5/5

Zombi – A Volta dos Mortos (Zombi 2) – 1979, Itália/EUA. Dir.: Lucio Fulci – Elenco: Tisa Farrow, Ian McCulloch, Richard Johnson, Al Cliver, Auretta Gay, Olga Karlatos, Stefania D’Amario, Lucio Fulci, Ugo Bologna, Monica Zanchi.

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