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– por Guilherme Bakunin

É indispensável que, acima de qualquer coisa, ao se assistir Todo Mundo Quase Morto, tenha-se a consciência das inúmeras referências e o entendimento de que o filme é antes de tudo (antes, não fundamentalmente) uma homenagem. Somente tendo isso em mente, a experiência de ver essa pequena obra-prima pode ser plena. Não que conhecer todas as referências seja indispensável, porque não é, mas é importante saber ao máximo, e acredito que isso valha pra praticamente qualquer filme, as intenções do criador.

Shaun é todos nós. Tem cerca de trinta anos, trabalha numa loja de eletrônicos, é fã de video-games, pubs e da sua namorada. Vive com os amigos Pete e Ed e de alguma forma, começa a se perguntar se a sua vida é satisfatória, ou se está estagnada pela jovial rotina. É mais ou menos em meio a essa turbulência existencial que dá puta que pariu e sabe-se lá como, começam a aparecer zumbis pela cidade. Pouco a pouco a cômica ameaça dos mortos-vivos vai se alastrando, até chegar ao estágio de calamidade pública, onde jornalistas respeitados mandam os espectadores enfiarem estacas no coração das ‘pessoas’ e vinis da original soundtrack de Batman são arremessados contra monstros.

É necessário apontar que o diretor inglês Edgar Wright, veterano em seriados de tv, realiza um trabalho impressionante, consciente. É, definitivamente, um filme fora dos padrões, mas Wright tem noções de ritmo e narrativa, e constrói todo o roteiro e toda a decupagem com perfeições invejáveis em quem finge trabalhar com comédia hoje em dia. É uma obra fora dos padrões por, trabalhar com o B de forma tão pop e limpa, por construir a base narrativa em cima de absolutamente nada, mesclar elementos claramente antagônicos de gênero (assim, só de cabeça, cito romance, comédia, suspense, drama e horror) e o faz de maneira consisa, impecável.

A comédia, enfim, é isso daqui. Diálogos rápidos como sempre forem, super contextualisados, boas sacadas, excelentes gags (alguém crie um Oscar só pro Pegg e pro Frost por favor?), cortes exagerados e geniais, nos momentos certos mesmo, violência nem um pouco moderada, que choca e graceja ao mesmo tempo. São o Wright e o Pegg (junto com o Wright, roteirista da empreitada) escancarando a perfeição do gênero.

E não tem, enfim, muito mais o que falar. Quem não viu, simplesmente veja, porque é difícil lembrar de filmes mais engraçados e também não é fácil lembrar de filmes tão bons quanto. Afinal, apesar da comédia definitivamente se destacar – porque é o melhor do filme mesmo e por isso ele deve ser exaltado -, existe, por trás, toda uma construção de personagem bem becana, que se mescla de verdade e de um jeito meio metalinguístico com a nerdisse e a infantilidade dos criadores do filme de um jeito bem interessante. O final de Todo Mundo Quase Morto mostra bem isso, já que o personagem não elimina a problemática, mas a esconde dentro do galpão. Ri de novo.

5/5

Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead) – 2004, Reino Unido. Dir.: Edgar Wright. Elenco: Simon Pegg, Nick Frost, Kate Ashfield, Lucy Daves, Dylan Moran, Kier Mills, Niccola Chunningham.

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