shock corridor 2

– por Bernardo Brum

O poder de fogo do cinema de Samuel Fuller é sempre impressionante, e Paixões que Alucinam, feito na época mais prolífica do cineasta, é puro cinema explodindo na veia, com toda a sua intensidade, força e fúria se desdobrando em uma imagem mais forte que a outra. E o cara ainda ousa sem parar, utilizando os recursos da linguagem cinematográfica com um impacto conseguido tão grande que não dá pra sair impassível do filme.

A história de um jornalista que se infiltra em um hospício passando-se por louco para descobrir o autor de um assassinato, e de quebra,  ganhar o Prêmio Pullitzer assume ares de inferno mais ainda que outro clássico sobre instituições de saúde mental, Um Estranho no Ninho. Aliás, arrisco dizer que perto do filme de Fuller, Milos Forman até que pegou muito leve em termos de direção.

Pois aqui, ao filmar mulheres ninfomaníacas atacando feito zumbis, um negro nazista querendo promover uma revolução ao estilo KKK, velhos com mentalidade infantil, pessoas com fantasias de ser alguém famoso, e por aí vai, Fuller fecha o hospício do resto do mundo e faz dele um microcosmo complexo, estranho, assustador e variado. Em momento algum fazendo gracejos, o cineasta quer promover guerra. Atiçar o espectador. Jogar cores no meio de uma alucinação para fazer com que os olhos acostumados ao preto-e-branco apenas arranhem superficialmente a sensação de estar descendo a um abismo sem volta.

Assusta ainda o fato que, no meio de tanta insanidade, o cineasta empurra seu roteiro redondo através dos caminhos tortos do local com a força de um trator. A todo momento dá vontade de saber, assim como o protagonista, o que acontece com o mundo lá fora, como está a garota que namora com ele, a busca de seus colegas jornalistas pela resolução do mistério, mas, uma vez chegando ao auge dos eletrochoques, da tortura mental e das estrahas convenções, a história finalmente se espatifa. Ele descobriu o assassino, ele vai ganhar o prêmio Pullitzer, mas está ficando progressivamente catatônico. E aí, Fuller, rei das set pieces cinematográficas, faz o jornalista correr em pânico quando começa a chover dentro de um lugar fechado. Um verdadeiro temporal, sem explicação ou lógica, um lampejo de cor que anuncia a chegada da falta de sentido e um relâmpago fuliminante. Nem céu, nem inferno: o que restou ao infiltrado foi o limbo, a catatonia profunda.

Em um final pra lá de triste e ao mesmo tempo cheio de ironia ácida, a namorada do jornalista faz de tudo para que ele volte ao mundo, sem sucesso. O vencedor do prêmio Pullitzer e de uma das mais corajosas matérias já escritas é, então, apenas um louco de pedra. Vitorioso, porém incapacitado, enquanto os sãos continuam comendo o pão que o diabo amassou. E volta pra mansão dos seus sonhos, em algum canto remoto de sua mente que já não percebe mais nada à sua volta – logo um jornalista, o homem da informação, aquele que deve ser os olhos que a população não têm no dia-a-dia. Essas premiações são um tanto malucas mesmo…

Se algum dia inventarem um cinema mais forte que o de Samuel Fuller, por favor, me avisem.

5/5

Paixões que Alucinam (Shock Corridor) – 1963, Estados Unidos. Dir.: Samuel Fuller. Elenco: Peter Breck, Constance Towers, Gene Evans, James Best, Hari (Harry) Rhodes, Larry Tucker, William Zuckert, Philip Ahn, Neyle Morrow, Frank Gerstle.

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