SUSPIRIA 8

– por  Luiz Carlos Freitas

Dario Argento é um dos mais cultuados cineastas do dito “Cinema Fantástico” e, ao lado de Mario Bava e Lucio Fulci, um dos maiores expoentes do cinema de horror italiano (e mundial).

Sua filmografia é carregada de contrastes, com tantos “altos” quanto “baixos”. Porém, mesmo nos seus trabalhos mais fracos, é impossível não reconhecer o seu enorme talento na direção. Suspiria é um dos seus filmes mais conhecidos e aclamados. Sempre presente em qualquer “top” minimamente digno de filmes de terror, é o ápice de seu apuro estético e dos maiores exemplos de sua habilidade de manipular as sensações de medo e tensão do público.

Ambientado na Alemanha, o filme conta a história de Susan Bannion (Jessica Harper), uma jovem americana que recebe um convite para ingressar como aluna na conceituada Escola de Balé de Escherstrausse, sede dos principais acontecimentos da trama. Chegando lá, logo na entrada, depara-se com uma jovem desesperada em fuga. Ao tocar o interfone, uma voz feminina alega que sua presença não é bem vinda e a manda embora. Somente no dia seguinte, após passar a noite num hotel, Susan finalmente é recebida pela diretoria da academia, a viace-diretora Madame Blanc (Joan Bennett) e a professora Tanner (Alida Valli), que dizem não ter conhecimento de quem possa ter sido a pessoa que a negou entrada na noite anterior.

À partir daí, vemos Susan interagir com as demais internas da escola, chegando a fazer amizade com Sara (Stefania Casini) e demonstrando interesse pelo jovem Mark (Miguel Bosé), também aluno que paga sua estada na escola prestando serviços gerais à diretoria. Ela também é informada que Patty (Eva Axén), a moça misteriosa que esbarrou nela na noite anterior, havia sido brutalmente assassinada, o que já a deixa receosa. Sua desconfiança aumenta quando ela passa a presenciar fatos estranhos dentro da escola, como barulhos à noite, vermes caindo do teto, indivíduos soturnos (como o mordomo ou uma das copeiras) e sensações ruins (chegando a desmaiar durante uma aula e, pouco tempo após, recuperando-se como se nada tivesse acontecido – e um misterioso sono que a faz acreditar estar sendo dopada), além do desaparecimento de sua amiga Sara (que havia alertado-a da presença maligna que ela sentia estar presente no prédio) que a levam a pesquisar sobre o local.

Durante suas investigações,faz contato com o psiquiatra Dr. Frank Mandel (Udo Kier numa pequena – mas importante – participação) e o Prof. Milius (Rudolf Schundler), autor de um livro sobre bruxaria, que a conta da lenda de Helena Markos, conhecida como “Rainha Negra”, poderosa feiticeira que havia morrido num incêndio quase um século antes naquele mesmo local, o que, aliado à morte de Sara, sua amiga, confirma suas suspeitas de que a escola é amaldiçoada, servindo como local de culto à antiga bruxa.

O argumento é bem simples e a abordagem do roteiro mais ainda, este, por sua vez, cheio de furos. Entretanto, a grande força do filme está justamente na parte estética. Argento cria um clima de tensão extrema baseado essencialmente nas imagens e nos sons. Assim como no seu trabalho anterior, o também genial (e ponto mais alto de sua carreira) Prelúdio Para Matar, o diretor procura ignorar certos pontos “lógicos” e passar ao espectador uma atmosfera de pesadelo, oscilando entre o real e o bizarro, tudo em detrimento da construção de um clima de medo extremo.

O trabalho de cenografia é fantástico. Como de costume no cinema italiano pós neo-realismo, o uso das cores se sobressai e ganha vida como um personagem. Isso, aliado à meticulosa estilização nas cenas de mortes, todas de uma violência gráfica brutal, carregadas de um “profondo rosso” que viria a ser uma das características mais marcantes de toda a filmografia de terror do Argento, fazem de Suspiria um verdadeiro espetáculo visual e exercício de tensão.

Logo nos primeiros instantes, no caminho de Susan do aeroporto à escola, somos deleitados com o jogo de cores dos reflexos no vidro do táxi. Tons entre o vermelho e o azul fortes, alternados à cada relâmpago, entregam o que será o grande clima do filme. A cena da morte por enforcamento, minutos após, é tida como uma das melhores do filme, tanto pelo aspecto visual, quanto pela trilha sonora atordoante (tal sequência, inclusive, foi responsável por me deixar com medo permanente de janelas à noite). A chuva de cacos do vitral e a poça de sangue jamais sairão de minha cabeça. Argento também faz uso de planos mega abertos, como na “belíssima” cena da morte do cego, focando as “sombras” passando nas paredes, dominando todo o espaço ao redor, procurando assim dar uma maior noção da dimensão do mal que os espreitava.

A trilha sonora é outro “personagem”. Fugindo da quase predominante trilha clássica usada nos filmes de terror, Argento embala os grandes momentos de seu filme com o rock da banda Goblin, com uma musicalidade pesada perfeita complementada por “suspiros” e gemidos de dor ao fundo, apresentada sempre em tom crescente, nos conduzindo lentamente à agonia.

Em alguns momentos, o volume alto da música sobrepondo-se aos gritos das personagens chega a ser realmente atordoante. A sensação ao ouvi-la é de que estamos realmente rodeados pelos mesmos demônios que dominavam o velho prédio. Seu ápice é alcançado nos momentos finais. A “Mãe dos Suspiros” gritando (ao mesmo tempo em que gargalha ao coro de uma legião de demônios): “You want to kill me! You want to kill me! Hell is beyond that door … The living dead!” é um dos momentos mais aterrorizantes e perturbadores que já presenciei em um filme.

Entretanto, muitos pontos fracos do roteiro são visíveis. Furos enormes que deixam alguns fatos importantes com pouca ou nenhuma explicação (como qual seria o envolvimento de alguns personagens importantes nos rituais de bruxaria, o destino de outros e a real motivação dos que veneravam a “Mãe dos Suspiros”). Porém, isso acaba sendo o de menos dentro desta obra.

Suspiria pode ser tida como a essência da contribuição do Argento para o cinema: a predominância da atmosfera sobre o conteúdo. Todavia, a força das imagens que ele nos passa é tamanha que até mesmo o roteiro, um dos pontos-chave de um filme, e as atuações chegam a ser, em dados momentos, irrelevantes. E conseguir isso é um mérito de poucos. Somente gênios (e doentes) como Dario Argento têm esse dom.

Screenshots
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5/5

Suspiria (Idem) – 1977, Itália/Alemanha. Dir.: Dario Argento. Elenco: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Miguel Bosé, Barbara Magnolfi, Susanna Javicoli, Eva Axén, Rudolf Schundler, Udo Kier, Alida Valli, Joan Bennett, Jacopo Mariani, Giuseppe Transocchi, Renato Scarpa, Margherita Horowitz, Fulvio Mingozzi, Franca Scagnetti, Serafina Scorceletti.